O sentimento de se ter um jornal de jornalistas aflorou de forma intensa nas respostas à pesquisa realizada no segundo semestre de 1976 pelo Conselho de Desenvolvimento Cooperativo da Coojornal. A maioria apoiou a ideia de se editar o jornal, alguns – 14 no total – defendendo a ideia de que deveria se tornar logo semanal e em seguida diário.
Manifestações interessantes e provocativas surgiram nas respostas abertas sobre o desempenho do jornal. Despontavam entre elas: ter compromisso maior com seus leitores; amadurecer uma linha editorial mais definida; fortalecer cada vez mais o jornal e a organização cooperativa, para ter musculatura para lançar um semanário (o que acabaria ocorrendo mais adiante, com a criação de O Rio Grande); deve trabalhar pela valorização profissional; deve-se discutir a linha editorial do jornal em uma assembleia geral; e tentar dar mais oportunidades de trabalho aos associados desempregados
Também houve quem defendesse a criação de um jornal de oposição ao regime e quem propusesse o fortalecimento do Coojornal, em razão de sua importância, ainda que isso implicasse prejuízos à cooperativa e pudesse levar ao fim dos house organs por ela editados. O saldo foi revelador no sentido de que mais da metade dos respondentes, 43, desejavam um semanário, embora muitos não tivessem clareza sobre como isso deveria ser feito.
O sentimento dos associados em relação à própria cooperativa também teve um bom termômetro nas respostas recebidas sobre os motivos de sua fundação: 49 entendiam que a finalidade era melhorar o mercado de trabalho; para 29, tratava-se de exercer uma imprensa independente; e, para 16, o objetivo era criar um semanário. Outras interpretações, com menos de seis indicações cada uma: ser instrumento da categoria jornalística, criar nova mentalidade, valorização profissional, atender à insatisfação profissional e fazer política de oposição.
O dado mais revelador é que ninguém concebeu a Coojornal como uma empresa voltada ao lucro. Predominou uma leitura de caráter classista na formação da organização, com a finalidade de melhorar o mercado de trabalho e a qualidade do jornalismo regional. Essa melhoria se traduziria na abertura de novas vagas e possibilidades, em melhor remuneração e na concorrência com a imprensa tradicional. Na avaliação final, também se evidenciava uma expectativa clara por uma imprensa politicamente definida e transparente, comprometida com a realidade.
As opiniões reveladas sobre a estrutura da cooperativa e seu modus operandi serviram de um bom alerta para os dirigentes. Enquanto 40 entendiam que ela era dirigida por um grupo bem intencionado e 26 enfatizavam que era aberta à participação dos associados interessados, outros 16 invocaram a tal “panelinha fechada”. O que soou muito preocupante, visto que estes representavam 20% dos associados ouvidos.
Os descontentamentos também foram expostos com a maior transparência, pois, se havia um princípio que se tratava com dedicação extrema, este era o da democracia. O que se ouviu: não é tão aberta e democrática como deveria ; a força do grupo que manda pesa muito; as decisões são tomadas por um grupo reduzido e influenciado por não jornalistas; há uma imagem de panelinha que não é verdadeira mas afasta muita gente; e deveria ser mais dinâmica, atrevida e ousada.
Procurou-se identificar também o sentimento dos associados em relação às diferenças de remuneração, que existiam dentro da cooperativa, de acordo com os níveis de produção e a carga de responsabilidade de cada um. Assim, 41 responderam que a remuneração deveria se basear em sistemas de produção, enquanto 34 manifestaram-se favoráveis à remuneração de acordo com o critério de responsabilidade, segundo o qual maior responsabilidade corresponderia a maior remuneração. Alguns declararam ver na cooperativa possibilidades revolucionárias na definição das relações de trabalho, enquanto outros não viam saída que não a manutenção “do esquema atual, vigente em todas as empresas”.
Os dados colhidos careciam de uma análise científica, mas ajudaram os dirigentes a entender melhor a sociedade e seus membros. O levantamento concluiu que uma maioria despontou como idealista, considerando a cooperativa um movimento classista e político visando uma sociedade melhor; formavam um grupo que desejava uma participação efetiva nas decisões administrativas e editoriais, e interessado em uma gerência mais democrática e no aperfeiçoamento cultural e profissional.
Outro grupo, menor mas também expressivo, aprovava os sucessos empresariais da Coojornal e seu papel na valorização profissional e abertura do mercado. Com a ressalva de que não se interessava pela função educativa da cooperativa, aceitando os valores tradicionais do mercado jornalístico – salários desiguais, projetos que enriqueçam a empresa de um ponto de vista meramente financeiro, coisas do tipo. Por fim, evidenciou-se a existência de um grupo reduzido em número, mas significativo por trazer à tona problemas que exigiam atenção.
Ótimo, e natural que tenha sido assim. Seria impossível haver unanimidade quanto à importância e à relevância da organização que se construía no dia a dia de um trabalho coletivo. Ao contrário, houvesse unanimidade, o pensamento crítico e as divergências estariam abafados, e o debate não teria sido tão rico quanto foi. E é plausível admitir que esta monotonia de uma quase unanimidade acabasse por reclamar o voto da discordância, como ensinou Carlos Drummond de Andrade.


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