Ninguém nunca te obrigou diretamente ou chegou e disse: seja assim. E, ainda assim, você aprendeu a não fazer perguntas que já sabia a resposta: se eu for mulher, eu preciso querer filhos? Se eu for homem, eu preciso gostar de futebol? Se eu tiver mais de trinta, eu já deveria estar em outro lugar da vida? Se eu estiver em um relacionamento, eu já deveria estar pensando em filhos? Se eu não quiser nada disso, tem alguma coisa errada comigo? Se eu não me encaixo, eu estou perdido ou só estou sendo eu mesmo?
A gente aprende o que responder antes mesmo de pensar: por quê? Aprende no silêncio, no olhar que muda, no comentário atravessado, no desconforto que aparece quando alguma coisa sai do lugar. Aprende sem perceber que está aprendendo, como quem incorpora uma língua, um gesto, um jeito de existir que parece natural, mas não é. É repetido e o que se repete muito, vira verdade. Pelo menos parece.
Tem algo profundamente estranho nisso, porque a gente cresce achando que está escolhendo, quando, muitas vezes, está só continuando o que já vinha antes, o que já era esperado, o que já estava pronto, como se existisse um roteiro invisível e a gente fosse só decorando as falas. E, talvez, o mais inquietante seja que ninguém precisa mais dizer nada. Foucault, registra com palavras melhores que essas que o controle mais eficiente não é aquele que vem de fora, mas aquele que a gente aprende a exercer sobre si mesmo. A gente passa a se vigiar, a se ajustar, a se corrigir antes mesmo de ser confrontado.
Tem gente que segue sem perceber. Tem gente que percebe e continua mesmo assim e tem gente que, em algum momento, trava, porque alguma coisa não encaixa e quando não encaixa, incomoda. Não é só quem vive diferente, mas quem assiste também, porque ver alguém sair do roteiro é perceber que ele existe e aí a mágica morre: você percebe que talvez poderia ter evitado as escolhas que não fez.
Butler fala que aquilo que a gente chama de identidade não nasce pronto, mas vai sendo “construído”. A gente aprende a ser quem é repetindo gestos, comportamentos, expectativas, até que aquilo pareça natural. Mas não é. É hábito, é insistência, é repetição bem-sucedida. E quando alguém não repete, ou repete diferente, alguma coisa desorganiza, porque, de repente, o que parecia fixo se mostra frágil.
Talvez por isso a gente aprenda tão cedo a se ajustar, a caber, a não ser demais, a não desviar muito. Porque desviar tem um custo. Nem sempre explícito, mas sempre sentido. Então a gente vai ficando dentro do possível, do compreensível, do que não cria muito atrito e, aos poucos, vai virando alguém que funciona. Mas, não necessariamente alguém que se reconhece.
Porque tem uma diferença que a gente evita encarar, e ela é mais profunda do que parece: funcionar não é o mesmo que viver. Agradar não é o mesmo que ser. Eu às vezes penso que não sei até que ponto sou eu querendo algo ou só desejando aquilo que esperaram de mim.
A gente chama de escolha aquilo que aprendeu a não questionar. Isso cansa. Cansa não saber se aquilo que você quer é realmente seu. Cansa não saber se você escolheu ou só seguiu. Cansa perceber que, muitas vezes, o desejo já vem pronto, como se tivesse sido ensinado.
E isso complica tudo. Afinal, se o desejo já vem atravessado, como saber o que é escolha? Como saber o que é seu? A gente aprende a querer o que não afasta, o que não cria problema e o que pode ser reconhecido.
E é aí a pergunta muda. Deixa de ser sobre o que você é e começa a ser sobre quem você está evitando desagradar.


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