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Prisioneiro da burocracia digital

Pensei que só eu era um idiota completo por não conseguir realizar uma tarefa, em tese simples, no aplicativo gov.br, mas acabei recebendo inúmeros relatos de pessoas de variados perfis que tiveram os mesmos padecimentos enfrentados por este ser analógico que vos fala.

Num caso recente, a tarefa a cumprir era uma mísera assinatura eletrônica em um documento. Para isso teria que acessar o gov.br, que, como a maioria dos aplicativos, foi ciado para facilitar a vida dos cidadãos/consumidores/clientes. Em se tratando de app governamental, suponho que o objetivo era evitar a burocracia dos cartórios e tabelionatos, essa nossa herança lusitana. Ledo engano no caso que vou relatar,

Tentei a primeira vez e já veio a exigência de uma segunda rodada de reconhecimento do meu perfil. Virou um atrapalho só, porque o sistema é tautológico, isto é, repete, repete e repete as exigências de dados e não dá acesso à etapa seguinte. Convoquei meu filho Rafael, que tem mais afinidades do que eu com as modernidades digitais, mas para minha satisfação por um lado, uma vez que não fui o único a não conseguir vencer o sistema e frustração por outro, pois o aplicativo simplesmente travou, voltamos ao ponto zero. Em determinada etapa, surge a exigência de identificação pela foto e mais uma gincana para acertar o enquadramento, o fundo adequado e a luminosidade, tudo isso comandado pela voz do robozinho, no caso uma robozinha.  Foram pelo menos seis tentativas até o ok da robozinha.

E no meio dos trâmites todos, aparece a necessidade de passar do perfil bronze para o ouro, o que ´significa outra trabalheira e mais perda de tempo. Para minha surpresa isso se resolveu  de repente, sem que eu entendesse como. Agora, pelo menos, sou um gov.br dourado. Tudo isso de nada adiantou porque o gov.br determinou de só poderíamos tentar o acesso de novo no dia seguinte. Fiquei imaginando o desespero de quem precisa de alguma documentação com urgência.

Em resumo, três dias e várias tentativas depois, consegui acessar o sistema e assinar o documento, graças ao socorro on line de um advogado e de um contador.

Sofri outro revés ao buscar no gov.br o comprovante dos meus parcos ganhos como aposentado para a declaração do Imposto de Renda. Consegui o documento depois de outra gincana no gov.br, trocando o PC pelo celular para conseguir acesso ao gov.br.

Em um terceiro caso, acabei desistindo ao tentar consultar a Nota Fiscal Gaúcha, que agora também migrou para o gov.br e ficou inacessível, pelo menos para este consciente contribuinte, que sempre pede para incluir o CPF nas notas. Fui consultar um especialista da Secretaria Estadual da Fazenda e a informação é de que existem mais reclamações, mas são poucas considerando o universo de milhões de contribuintes.  Isso significa que faço parte de uma minoria discriminada, o que agrava o problema. A explicação é que as exigências fazem parte das necessárias soluções de segurança do sistema. Provavelmente foram inventadas pela elite burocrática que infesta o setor público em todos os níveis. Por isso, o aplicativo fica tão seguro que nem o usuário consegue entrar.

Não faltam brincadeiras nas redes sociais com as dificuldades de acesso ao gov.br, como esta:

– Muitos vão dizer que é sorte, mas hoje eu consegui logar minha conta no gov.br…

Diante dessas maratonas pelos descaminhos digitais, cheguei a sentir saudades dos cartórios e seus preços salgados, mas onde, pelo menos, a gente é atendida por gente.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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