Há um quadro na parede da casa de Marcus Vinicius Klein. Na verdade, são dois. Um mapa do Brasil e um mapa-múndi, cobertos de tachinhas coloridas: as que já visitou, numa cor; as que ainda vai visitar, noutra. O planejamento de viagens de Marcus chega até 2040. Não é exagero. É exatamente quem ele é: um homem que enxerga longe, que organiza o futuro com a mesma seriedade com que cuida do presente, e que sabe, melhor do que ninguém, que os maiores projetos levam tempo e valem cada minuto.
“Eu trabalho para viajar”, diz, como quem enuncia uma verdade simples e inabalável. E é nessa frase que mora muito de Marcus Klein: a clareza sobre o que importa, a disciplina para perseguir isso e a leveza de quem descobriu como equilibrar ambição e afeto.
Novo Hamburgo, chimarrão e o Beira-Rio
Nasceu em Porto Alegre, em 17 de fevereiro de 1969, mas foi em Novo Hamburgo que cresceu. Filho de Enio, administrador, descendente de alemães, e de Marlene, professora de espanhol, carioca, Marcus teve uma infância que ele mesmo descreve como “muito tranquila e com muito carinho”. A mãe é católica fervorosa. O pai torcia pelo NH. E o avô materno, militar de Bagé, era colorado até os ossos, e foi ele quem plantou essa semente no neto.
Colorado fanático desde pequeno, Marcus ia ao Beira-Rio nos fins de semana. Almoçava no restaurante Barranco com a família. Dessas idas ao estádio, ficou não só a paixão pelo Inter, mas um tipo de memória afetiva que só a infância sabe construir. Ana Cristina, a irmã três anos mais velha, faz parte desse mundo das doces lembranças.
Em casa, o silêncio durante o ‘Jornal Nacional’ era sagrado. De manhã, Rádio Gaúcha e o acompanhamento das notícias pelo jornal Correio do Povo.
Havia muita conversa sobre notícias internacionais, política, economia e esporte. Marcus cresceu num ambiente onde o mundo cabia à mesa do jantar. Não é coincidência que, no ensino médio, pensasse em fazer Jornalismo. Tampouco é coincidência que, décadas depois, tenha se tornado um dos executivos mais respeitados no universo da comunicação gaúcha.
O orelhão e a virada
A escolha do curso foi decidida num orelhão; lembra deles, caro leitor? Marcus estava se inscrevendo para o vestibular, Jornalismo na cabeça, quando o pai, do outro lado da linha, ponderou: grandes jornalistas como Paulo Sant’Ana e Lasier Martins tinham formação em Direito. A faculdade daria outras qualificações. Marcus ouviu, pensou e mudou de curso ali mesmo.
Formou-se em Direito. Pensou em ser promotor de justiça. Cogitou a diplomacia. Mas, em 1993, olhando os classificados do jornal Zero Hora, um texto chamou atenção: “Venha ser trainee”. O anúncio não deixava claro que era para a área de Comunicação. Marcus fez a prova e passou em segundo lugar. Era o segundo grupo de trainees do Grupo RBS.
“Lá dentro, me senti em casa”, recorda. Soube a programação inteira, trabalhou na área comercial da Gaúcha, no planejamento estratégico da corporação, nas assinaturas do jornal. Seis anos que ele descreve como um período maravilhoso — e também exigente. Tinha chegado com formação em Direito, num ambiente de jornalistas e publicitários. Correu atrás. Fez pós-graduação em Marketing na PUCRS. Depois, mestrado em Administração na Ufrgs. A formação foi sendo construída em movimento, sem parar.
A Claro e o show que entrou para a história
Em 1999, Marcus foi convidado a trabalhar na Claro, em uma empresa que ainda nem havia lançado a marca. Era o momento de startup de uma das maiores operadoras de telefonia do Brasil. Começou como analista, montando tabelas de preços do zero. Em dois anos, já era gerente de Marketing.
O período foi intenso e formador. A Claro Digital foi comprada por um grupo mexicano, que também adquiriu operações no Rio de Janeiro e em Brasília. Marcus se mudou com a família para o Rio — a esposa Cláudia e a filha Sabrina, ainda pequena. Trabalhou no processo de unificação das marcas regionais em uma identidade nacional. Cada região queria preservar o próprio nome. No Rio Grande do Sul, a cor era verde e laranja. Em São Paulo, diziam que as cores não tinham estilo suficiente; sugeriram que fosse preta e branca. Havia uma consultoria americana. Havia reuniões intermináveis.
Marcus e um grupo de colegas, entre eles Dado Schneider, com quem construiu uma amizade que dura até hoje, trabalharam para convencer o presidente da Claro, o mexicano Luís Cosio. No fim, a marca Claro foi escolhida. A cor também, após uma ida ao México: o presidente da matriz quis vermelho, de paixão. Voltaram com a marca aprovada: Claro, vermelha e branca. Marcus diz que tem material para escrever um livro sobre essa época. Talvez um dia escreva, com o próprio Dado.
Mas o capítulo mais espetacular dessa fase ainda estava por vir. Como gerente de Eventos da Claro, Marcus recebeu do presidente da empresa uma missão: fazer algo grandioso. O sobrinho de Oscar Niemeyer trouxe a ideia. Lenny Kravitz já havia se apresentado nas areias de Copacabana. Mas agora a aposta era maior: trazer os Rolling Stones para o Brasil. Meses de trabalho. Logística monumental. Incertezas que Marcus carrega na memória com a nitidez de quem sabe exatamente o quanto aquilo poderia ter dado errado.
Deu certo. Mais do que certo. O show de Copacabana, em 2006, entrou para o Guinness Book como o maior show da história da banda e um dos maiores do mundo. Marcus liderou o projeto. Quando o presidente mexicano da Claro, que havia duvidado que daria certo, o elogiou, foi com uma palavra que ainda ressoa: “Ousado.”
Propósito maior
Depois da Claro, Marcus foi para o Grupo Sinos, ligado à Mídia e ao Jornalismo. Da gerência de Marketing com 40 pessoas, passou a liderar uma equipe de 500, incluindo uma redação inteira. Um desafio de outra natureza: não era mais produto, era gente, era conteúdo, era o dia a dia de um veículo de Comunicação com décadas de história.
Depois, a TIM, de volta ao universo das telecomunicações no Rio Grande do Sul. Ele mesmo brinca que mudar da Claro para a TIM foi “como mudar do Inter para o Grêmio”. Mas havia amigos dos dois lados, e Marcus sempre soube que o que importa são as pessoas, não as camisas. Em 2022, chegou à PUCRS. Vai fazer quatro anos. E é lá que, talvez, esteja escrevendo o capítulo mais bonito da carreira.
O museu, as crianças e o legado
Marcus Klein é hoje diretor do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, que possui quase 60 anos de história. Administra também a editora e a área imobiliária da universidade, além de um projeto ambicioso de transformar o campus numa cidade voltada à inovação e à educação nos próximos 15 anos.
Mas é o museu que pulsa mais forte. Em maio de 2026, após três anos de trabalho, o Museu da PUC inaugurou a exposição de longa duração ‘Extinção: passado, presente e futuro’, uma das maiores transformações da instituição em toda a sua história, com 15 ambientes temáticos. “Ver a cara das crianças não tem preço”, diz Marcus, com a simplicidade de quem já realizou coisas enormes e sabe que o que fica não são os números, são os rostos. Felizes!
“Meu sonho profissional, hoje, é transformar o Museu da PUCRS em uma referência nacional de turismo em Porto Alegre. E sinto que temos potencial para isso”. Percorrendo o mundo, observa como algumas cidades se definem pelos seus museus e cita como referência o que o Museu do Amanhã e o Museu de Arte de São Paulo (Masp) representam para o Rio de Janeiro e para São Paulo. Acredita que Porto Alegre tem esse potencial. E, quando Marcus Klein acredita em algo, costuma fazer acontecer.
Claudia, Sabrina, Débora e a gata Meg
Casado há quase 28 anos com Claudia, Marcus tem duas filhas: Sabrina, de 25 anos, que se formou em Medicina; e Débora, de 21, que estuda Arquitetura na PUCRS, mesma universidade onde o pai trabalha. Às vezes, os dois vão juntos para a faculdade. E, pouco depois do final desta entrevista, o pai buscaria a filha na universidade.
A família passou por muitas cidades, muitas mudanças, muito ritmo acelerado do mercado corporativo. Agora, poder estar perto das meninas é um presente que Marcus reconhece e valoriza. Completa o quadro doméstico a gata Meg, que distribui presença generosa pela casa.
O pai, Enio, faleceu no ano passado. A mãe, Marlene, tem 87 anos, e Marcus a visita com regularidade. Há nessa rotina algo que ele não negociaria por nada: o cuidado com quem ficou.
Lista de desejos
Voltamos aos quadros. Marcus quer ter quatro. Por ora, são dois, mas o planejamento avança, se a esposa deixar, pois “já não há espaço na parede”, diz, sorrindo ao reproduzir a fala de Cláudia. A Grécia e o sul da Itália são destinos aguardados. A Austrália também está entre os destinos desejados. A lista dos 10 destinos que quer sempre revisitar inclui Paris, Lisboa, Espanha, Alemanha e Itália.
Quando viaja, viaja com preparação. Pesquisa o que vai aprender, onde vai ficar, o que vai ver. Não é turismo. É uma forma de existir no mundo.
O que vem pela frente
Marcus se define como empático e visionário. Nos lugares onde trabalhou, sempre pensou em projetos de grande impacto. Reconhece que, por muito tempo, pensava demais antes de agir, um excesso de prudência que foi trabalhado ao longo dos anos, migrando gradualmente da gestão de Vendas para o Marketing, onde o planejamento e a criatividade andam juntos.
Lê muito: biografias, livros sobre hábitos, finanças pessoais. Está lendo ‘Outlive’, do médico canadense Peter Attia. Aprecia cinema europeu, mas não dispensa uma boa história bem contada, seja ela pop ou dramática. Assistiu a ‘O Diabo Veste Prada 2’ e adorou. Gosta de documentários, de podcasts, de acompanhar mercados e bolsa de valores com a mesma curiosidade com que acompanhou, desde menino, as notícias do mundo.
Quando o assunto é esporte, a disciplina fala alto, mais uma vez. Praticava futebol de salão com uma turma fixa, até a pandemia interromper. Jogava tênis, está retomando. Caminha com a esposa. Frequenta a academia.
Seu lema, emprestado de Fernando Pessoa, diz tudo: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Marcus Klein não tem a alma pequena. Tem quadros na parede com tachinhas, um museu que vai durar gerações e a certeza tranquila de que os melhores projetos ainda estão por vir.


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