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Entre vertigens e parasitas

Por Carlos Guimarães

O debate brasileiro sobre o Oscar 2020 ficou polarizado entre aqueles que gostaram de ‘Democracia em Vertigem’ e aqueles que detestaram o documentário. Separar as duas turmas me parece bem óbvio: a esquerda adorou, a direita detestou e quem ponderou é o chamado isentão. Como eu gosto bastante de cinema e vi todos os principais indicados deste ano, resolvi escrever sobre o documentário e sobre o paradoxo que o Oscar apresentou, especialmente para aqueles que odiaram o filme e comemoraram a vitória de ‘Parasita’.

Existe aquilo que é fato e aquilo que é interpretação de um fato. É bem fácil identificar as duas coisas, mas é preciso querer – e quem quer pensar hoje em dia? ‘Democracia em Vertigem’ apresenta uma série de fatos: as manifestações de 2013, as eleições de Lula, Dilma e Bolsonaro, a queda de Dilma, a prisão de Lula, a ascensão da direita ao poder e outras cositas más. Para petralhas e bolsominions, são fatos. Incontestáveis. Todos eles. Fatos são reais, não ficcionais. ‘Democracia em Vertigem’ não relatou nada ficcional, portanto. Relatou fatos para um segundo passo, que é a interpretação dos fatos. Possivelmente contestáveis de acordo com aquilo que a gente pensa, nossos valores, nossas crenças e nossas ideologias. O filme é, logo, um documentário.

Ele pode ser ruim para quem acredita que os fatos contados por Petra Costa tiveram uma interpretação diferente daquela que a pessoa acredita. Ele pode ser bom para quem concorda com Petra. Eu coloco aqui o que eu penso sobre ‘Democracia em Vertigem’: eu não achei um documentário digno de Oscar. Não por causa da interpretação dos fatos – os “isentões” também entendem liberdades e pontos de vista que toda interpretação de fatos produz. A questão, para mim, resume-se na narrativa proposta pela diretora. Existe, ali, uma romantização de muita coisa em que uma ênfase mais contundente poderia ser empregada. Por mais que seja claramente um documentário com um viés bem definido, o problema não está aí. É mais uma peça que classifica vítimas da ditadura como “heróis” e, neste caso, com uma singela relação familiar que, obviamente, tem uma intenção sentimental. Para o meu gosto – e, veja bem, tudo aqui é absolutamente pessoal e sem qualquer pretensão de influenciar no gosto de outros -, um documentário mais “cru”, com uma narrativa que desprezaria essa dicotomia de heróis e vilões nos tempos atuais, seria melhor. Serviria também para humanizar os personagens. O que ‘Democracia em Vertigem’ faz é aumentar uma mitificação e uma narrativa heroica. Gosto mais do “câmera na mão e deixa o personagem fluir” do que uma construção narrativa que foi provocada pela própria diretora e não por personagens que podem ser mais interessantes.

Mas esta é a minha versão. É, sim, um documentário. Poderia ser um grande documentário. Sei que é difícil enxergar coisas técnicas numa época em que aquilo que vale é só o que a gente acredita – e dá-lhe desprezar o resto. A indicação ao Oscar é um grande mérito à diretora. Mas a Academia já premiou ‘O Discurso do Rei’, ‘Shakespeare Apaixonado’, ‘Crash’ e outras bombas. Ou seja, o Oscar respalda o filme, mas não o deixa imune a críticas. No caso, a crítica que eu faço é referente a um tipo de narrativa que não me agradou, a uma condução de filme que poderia ser melhor.

O paradoxo do Oscar para os debates brasileiros está em ‘Parasita’. Um filme brilhante, original, genial, necessário para os novos tempos. Por mais que ‘Democracia em Vertigem’ apresente uma visão que, lá no final, pretende escancarar um sistema brasileiro que perpetua a desonestidade, a corrupção e o absurdo, ‘Parasita’, que não é um documentário, utiliza-se da ficção, da construção narrativa original e de uma espécie de realismo fantástico para mostrar uma história de luta de classes muito mais contundente que os relatos de ‘Democracia em Vertigem’. ‘Parasita’ realmente perturba, produz reflexão e questiona realidades, relações e tratamentos entre ricos e miseráveis.

Claro que são dois filmes incomparáveis. A questão aqui foi justamente o debate sobre o Oscar. Percebi, por exemplo, que pessoas que criticaram o documentário por causa da seu “lado”, gostaram de ‘Parasita’ porque acharam o filme “original”. Aposto: se trocassem a Coreia do Sul pelo Brasil, com a mesma narrativa, ‘Parasita’ seria o inimigo número um (ou número dois, ‘Democracia em Vertigem’ pegou esse posto) daqueles que odiaram o documentário. Os mesmos que levaram livre uma crítica social muito maior, que fala sobre nosso tempo, sobre o capitalismo como objeto de desejo, de obsessão, de paranoia, cuja consequência irreversível é a transformação de seres humanos em “parasitas do sistema”, um efeito colateral que habita os porões da riqueza, como uma praga da aristocracia, desprezada pela mesma e reconhecida só pelo cheiro.

Mais ou menos como o mundo vive em 2020, construindo muros para separar as pessoas por etnia, gosto, cor, casta, grana ou um suposto valor social. Não adianta. O efeito colateral está diante de nós, nas ruas ou na ideologia. O Brasil não enxergou assim porque estava preocupado demais em falar bem ou mal do PT. A cegueira paranoica não permitiu entender aquilo que ‘Parasita’ nos fez pensar. Não há heróis ou vilões. Há só um sistema, parasitado por aqueles que ele insiste em excluir, mas que estão dentro de nós e não nos nossos porões. Nosso cheiro já é o mesmo.

Autor

Carlos Guimarães

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