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Heróis

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 

“Pobre do país que não tem heróis.

Miserável é o país que precisa de heróis”

Bertolt Brecht.

Para os sábios gregos, heróis eram seres híbridos, semi-deuses, filhos de deuses que se uniram a mortais, assumindo uma dupla faceta: sobrenatural (com poderes extraordinários) e humana  (com fraquezas e limitações). Já a escola freudiana ensina que o Homem criou os heróis para lidar – e aceitar – a sua pequenez e limitação. Na antiguidade clássica, semi-deuses; depois, heróis    de carne e osso; nos tempos modernos, super-heróis, em muito distantes de Hércules ou de Aquiles, mas com os mesmos ideais: Justiça, Paz e o Bem.

***

Os heróis da mitologia clássica foram substituidos por heróis de carne e osso, que despontam em guerras, conflitos e lutas de libertação. São pessoas aparentemente normais que, em certas circunstâncias ou mediante convincentes chamamentos, revelam dotes e capacidades excepcionais. 

As páginas da História estão recheadas de figuras inspiradoras, como Viriato, o primeiro herói da portugalidade; Robert Wallace,    o rebelde que desafiou os barões ingleses. E com lugar reservado para as heroínas: Boadiceia, a rainha celta que liderou as tribus do Norte contra as legiões romanas, e claro, Santa Joana d´Arc, na França dominada pela Inglaterra.

O frances Jean Paul Sartre não foi generoso com heróis e heroínas. Para ele, são fantasmas de si mesmo, alimentados por aqueles que lhe querem heróis, que vivem o papel de uma fantasia salvadora.  O filósofo do existencialismo escreveu que todo homem que se pretende herói alimenta o pavor de sua existência, quase sempre herdada como culpa. E que, em sociedades empobrecidas em espírito, é frequente surgir a necessidade de um herói. Para isso, basta a vontade e o instinto coletivo – e logo aparece o Herói.

Talvez seja por estas e outras que Bertold Brecht dizia ser pobre    o povo que precisa de heróis. Seu personagem Galileu completa, afirmando que, quando um povo precisa de heróis é porque ele permanece como escravo da tirania do medo e ignorância. Que ainda não conseguiu construir o caminho para a liberdade. E com a sagracão de seu herói, surge o paradoxo – o mesmo povo não será livre, pois o herói não deixa de ser um escravo.

***

Em contraponto, Andreas, o auxiliar de Galileu, afirma que “pobre  é o povo que não tem seu herói”. Talvez Andreas, não possui o entendimento que liberdade é o resultado de uma produção coletiva.   Enquanto a História demonstra que Revolução e Democracia não dependem de heróis, Stan Lee, o criador dos super-herois que habitam nosso imaginário lembra:

 

“- Todos nós desejamos ter superpoderes.

Os heróis nos permitem sonhar que podemos

fazer mais do que somos capazes ”.

 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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