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O feitiço do tempo

Por Carlos Guimarães

 Tem aquele filme, do Dia da Marmota, em que o Bill Murray vai para uma cidade no interior dos Estados Unidos, na abertura do inverno. Lá, uma marmota prenuncia como será a temperatura mais fria do ano: se devastadora, escura e inóspita, ou se será fértil, ensolarada e abundante. Mas ele, que interpreta um repórter, não consegue fugir de uma sina inusitada: ele está preso no mesmo dia, acordando ao som de Sonny and Bono – I Got You Babe, num modesto hotel, com o mesmo mala o cumprimentando diariamente, isto é, com o dia se repetindo de forma literal. Como até no impossível existe livre arbítrio, o egocêntrico repórter Phil Connors resolve fazer algumas coisas sabendo que o dia será o mesmo sempre, como tentar conquistar a jovem jornalista assistente, comer até não poder mais, assaltar um banco ou, quando já não aguentava mais, tentar acabar com o dia resolvendo encerrar com a própria vida, algo que não adiantava junto, já que ele acordava na manhã seguinte ouvindo I Got You Babe e tudo seria igual e igual e igual.

 Eu adoro esse filme. Acho sensacional. É engraçadíssimo. Mas é claro que tem uma espécie de lição de moral no final das contas. Connors, o Bill Murray, se redime de toda uma história de egocentrismo, megalomania e desprezo pelos outros. Ele se reinventa e descobre que é possível se tornar uma pessoa melhor. Aí vira o dia. Também lembrei daquele outro filme com o Nicolas Cage, que no Natal, ele acorda, do nada, ao lado da antiga namorada da faculdade, vivendo uma vida bem diferente da sua real. Ao invés de ser algum figurão ricaço e, igualmente egocêntrico, torna-se um pai de família exemplar, filhos, cachorro, mulher e contas para pagar. Retrata ali qual seria sua vida caso tivesse optado por ficar com a namorada ao invés de seguir uma carreira solo que o deixou rico.

 Mas nada disso acontece. Ou acontecia. Aí vem um vírus e a gente está em casa, longe do convívio social e do toque, do abraço, do presencial. É videoconferência para cá, uma live para lá, aquele quiz esperto para passar o tempo de outro lado. E um home office que nos afasta dos colegas, nos tira o convívio. Muda a noção do tempo. Transforma aquilo que conhecemos como uma espécie de espírito social. Ficamos a maior parte do tempo conosco e mais ninguém. É como o Phil Connors no Dia da Marmota. Se a gente consegue entender a passagem dos dias, eles se tornam, em termos sociais, uma repetição diária da gente com a gente mesmo. Nunca estivemos tão próximos de nós.

 Desconsiderando a narrativa hollywoodiana que exige um desfecho, e esse desfecho é a redenção do egocêntrico, a salvação de uma alma perdida. Mas nós não somos uma alma assim. Ou será que somos? O que quero colocar é que nesses tempos de isolamento forçado e necessário, temos a oportunidade de realmente colocar as coisas em seus lugares. Aquele tempo para nós, que tanto sonhamos durante um ano, agora passa a existir, de forma compulsória, imperativa, obrigatória. Não é de nosso costume isso de uma forma tão contundente. Mas passou a ser. Será que estamos olhando para nós em busca das nossas pequenas redenções, olhando nossas imperfeições e querendo, quando acabar isso tudo, tornar-nos pessoas melhores?

 Se o tédio nos leva à live e o costume social à videochamada, existe uma noção de tempo que nos obriga a um papo bem sério com nossa alma. Seja para tocar aquele projeto engavetado ou para descobrir coisas que a gente não sabia. O calendário troca os dias, mas a gente não troca de ambiente. A gente percebe que aquela vida enlouquecida e aparentemente sem pausa dá lugar a uma sensação de vazio por causa dela. Entretanto, se temos esse limão, que façamos uma limonada. O feitiço do tempo apareceu na nossa vida de forma única, a pior possível. Antes que o palco desabe, quem sabe não passamos a ser alguma coisa melhor que éramos. Um Dia da Marmota produtivo. A nossa essência, seja lá em que futuro for, vai agradecer.

Autor

Carlos Guimarães

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