O passado é um sucesso. Além das lives, um outro fenômeno percebido neste período de isolamento social é o enorme número de jogos reprisados pelas emissoras de televisão. Com os campeonatos paralisados e com uma grade de programação para preencher, os canais a cabo resolveram mexer em seus arquivos para mexer com a memória dos telespectadores. Jogos históricos de Copas do Mundo, grandes clássicos do futebol brasileiro, conquistas inesquecíveis e eventos de outras modalidades são recuperados para uma audiência repleta de saudade de ver um joguinho na TV. Não é só o futebol; vôlei, basquete, futebol americano, Fórmula 1, lutas, Olimpíadas, tênis e até e-sports são (re)transmitidos. É um artifício bem inteligente. Mais do que a paixão do brasileiro pelo esporte, que, bem da verdade, é muito maior quando há um compatriota vencedor, trata-se aqui de uma coisa bem mais profunda: a ligação do esporte e da mídia com a memória afetiva de nosso povo.
É comum a gente saber o que estava fazendo quando o Brasil foi tetra ou quando Ayrton Senna ganhou em Monaco. Há uma memória programada que associa os momentos de nossas vidas aos eventos importantes da sociedade – quem nunca respondeu à pergunta “onde você estava no 11 de setembro?” sem que houvesse uma precisa resposta? No esporte, em especial no futebol, esse registro funciona como a ativação de um modo sensorial que naturalmente é ligado à emoção. A gente se emocionou com a história do esporte brasileiro. A gente precisa dessa emoção nos tempos atuais, como um gatilho do bem, para que a gente se conforte, se conecte e até se encontre. Só a memória faz isso.
A Rádio Guaíba, desde o último final de semana, passou a igualmente colocar em sua programação jogos históricos que foram veiculados pela emissora e que estão disponíveis em seu excelente acervo. No sábado, dia 25, aconteceu a reprise de Grêmio 2 x 1 Hamburgo, a final do Mundial de 1983, com a conquista gremista em Tóquio. Já no domingo, dia 26, houve a retransmissão de Inter 1 x 0 Cruzeiro, no primeiro título nacional do colorado. Além do registro de uma audiência enorme, o que se percebeu nas redes sociais, nos fóruns de ouvintes e nas conversas informais foi um imenso sentimento de gratidão dos ouvintes. Eles estavam agradecidos por algo que foi feito. Naquele momento, o rádio não era somente o seu companheiro habitual. Ele, magicamente, transformou-se num reprodutor de emoções, imagens e sensações que entregaram a este ouvinte algo que nenhum dinheiro no mundo compra: afeto.
Não foi só pelo jogo. Poderia ser, mas não foi. É algo mais forte. É, também, ou, principalmente, pelo rádio. Afinal de contas, os jogos não foram televisionados, não foram revistos. Eles foram reouvidos, com a utilização de um sentido apenas. É aí que entra a mágica. Se, de certa forma, a exploração dos sentidos serve como uma absorção de sensações, e, quanto mais multissensorial for, mais próxima é a experiência de uma realidade, visto que o real é uma apreensão de sentidos – quanto mais sentidos utilizados, mais real é a experiência –, como descrever que um meio onde só há um sentido envolvido – audição – tenha uma penetração tão grande ao ponto de despertar uma memória afetiva inesquecível?
Dois são os motivos principais: 1) o rádio é um fornecedor de sensações ao imaginário; 2) o rádio – especialmente o antigo – possui uma mitologia envolvida nele. O imaginário e a mitologia são dois elementos que transcendem o real. A experiência, neste sentido, não é pelo real. Ela se dá por um exercício de imaginário que transforma aquilo que foi vivido em algo mitológico. Ele é incapaz de desfazer isso. Pelo contrário, ele realimenta, impulsiona, estimula. Um exemplo é ver um jogo pela televisão. Assistir aos jogos da Copa de 1982 pode ser, neste caso, algo frustrante, uma vez que toda a imagem feita em torno do time do Telê Santana pode ser derrubada por uma nova percepção, mais adulta, menos envolvida, mais racional. O mito cai diante de uma releitura dos fatos. Com o rádio, é diferente. O mito permanece, ganha sobrevida. O imaginário é estimulado, num confortante sentimento que carrega em grandes doses uma pequena brisa de nostalgia misturada com aquela sensação de que, por um tempo, era possível sonhar.
O real não sonha, o real é, existe, acontece. O sonho pertence ao imaginário. O rádio, que para os mais céticos e racionais, é um meio de comunicação, supera esse preto no branco que a gente precisa reafirmar para fincar nossos dois pezinhos no chão. O rádio voa, captura e passa sua mensagem uma ideia de que não estamos mais sozinhos e que, principalmente, através dessas reprises, que a gente já foi muito feliz. O rádio é o meio de comunicação mais afetivo e companheiro. E é, também, o único capaz de explorar sensações como a de ouvir o seu time ser campeão numa transmissão inesquecível, onde tudo parece mágico, perfeito e inabalável. Precisamos disso em tempos como o de agora. A mitologia do rádio é viva e imortal, por mais que queiram transformá-lo de caixinha mágica em caixinha burocrática. A mitológica caixinha que emite sons é uma caixinha de sonhos.
