Colunas

O compromisso com o que é certo

Por Carlos Guimarães

 Uma das pesquisas mais importantes feitas recentemente pelo Programa de Pós-Graduação em Comunição e Informação da UFRGS foi feita por Gisele Dotto Reginato, em tese de doutorado defendida em 2016. O título é “As finalidades do jornalismo: o que dizem veículos, jornalistas e leitores”. Lembro que o estudo foi feito antes do surto de fake News que proliferou no país, especialmente depois desta data, uma vez que, possivelmente, sua construção de pesquisa tenha sido realizada em um período anterior ao que o resultado mostrou. Seria curioso ver uma atualização desta pesquisa.

 O trabalho apontou que, para os leitores, a principal função é “fiscalizar o poder e fortalecer a democracia”, seguido por “informar”, “esclarecer o cidadão e apresentar a pluralidade da sociedade” e “verificar a veracidade das informações”. Proponho um complemento ao estupendo estudo, que está disponível em repositórios acadêmicos de forma gratuita na Internet. A pergunta é: “como você acha que deve agir o jornalista?”.

 Sem qualquer base científica, valendo-me apenas de uma certa observação, de uma boa dose de intuição e de considerável experiência de quem se relaciona com público há 21 anos no jornalismo e há 11 anos em redes sociais, diria que o “informar e ponto final” seria a primeira resposta. A segunda seria “ser imparcial”. No canal que participo no YouTube, o #Sexta-feira13 (inscrevam-se, é de graça e o peixe está aí para ser vendido), debati, ao lado dos colegas Fernando Puhlmann e Thiago Suman, essa entidade divina e inexplicável que é a tal da imparcialidade.  Por si só, essa atribuição – criada, diga-se de passagem, por nós – já recorre em colocar o jornalista num pedestal que, até hoje, nenhum ser humano conseguiu alcançar. Como ver as coisas sem ter opinião sobre as coisas? Quem, em sã consciência, consegue dizer que, dentro de seus juízos de valor e suas crenças pessoais, aquilo é ou não correto?

 A mitologia da imparcialidade, outrora considerada condição sine qua non para exercer a atividade de jornalista, escorrega na primeira curva mais sinuosa que tensiona aquilo que aconteceu – o fato – e como aquilo aconteceu – a descrição do fato. Cada jornalista descreve o fato por uma perspectiva diferente, baseada em seus próprios conhecimentos, valores, óticas e condições. Uma suposta imparcialidade recorreria em todos terem a mesma observação rigorosa sobre coisas que, boa parte das vezes, são subjetivas. Há um subjetivismo na atividade, como há em toda ação humana. O fazer jornalístico não possui a exatidão matemática para operar. Ele é, sobretudo, uma operação humana, pessoal, flexionada de acordo com aquilo que o interlocutor vê no fato.

 Isso significa que todo fato será narrado com interesse ou motivações pessoais? Veja bem, é desonesto interpretar assim, porque aí entramos em algo que não é, e nem pode ser, mito, que é a honestidade e o compromisso com a verdade. E, perpassando essa obviedade que temos como cidadãos, o compromisso com o lado certo das coisas. Antes de “informar”, “ser imparcial” ou “fiscalizar o poder” (o que reforça o ethos e cria uma abstração idealizada de que “todos somos Bernstein e Woodward”), o nosso compromisso é estar no lado certo da história.

 Ao contrário de outra utopia formatada para nos proteger, que é o de que “a notícia tem dois lados”, existe algo que se sobrepõe a isto, que é a noção – universal – de moral, de ética e de bem-fazer. Não existem dois lados da notícia entre algoz e vítima, entre racista e não racista, entre fascista e não fascista. A proteção entre ser um mediador entre pensamentos opostos torna o jornalista omisso quanto àquilo que deveria estar em seu cartão de visitas, muito antes da imparcialidade, da neutralidade e dos “diferentes lados da notícia”. Se nossa finalidade é fiscalizar o poder e salvaguardar a sociedade, só nos resta estar do lado certo da história, que em nada tem a ver com suposições ideológicas ou inclinações políticas que algumas interpretações do texto podem gerar – ainda mais, conhecendo o colunista. Não é sobre ideologia, é sobre algo maior: o compromisso de estar no lado correto e se posicionar sobre isso é um dever humano.

Autor

Carlos Guimarães

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.