O Fantástico mostrou, ou seja, ninguém me disse, eu vi. Vocês também. A Dias Ferreira, no Leblon, é o point descolado dos mais afortunados residentes da Cidade Maravilhosa. É uma espécie de Padre Chagas fluminense, como a Lapa é o correspondente à Cidade Baixa, para quem está em Porto Alegre. Cada lugar tem o gueto certo para a tribo certa. A sociedade não responde à sua pluralidade agregando; ela separa os seres por pertencimento, situação social, econômica ou ideológica. Existe a zona urbana e a zona rural. E dentro da zona urbana, os bairros. E, nos bairros, uma separação pelos chamados “tipos ideais” que compõem cada um. Parece sociológico demais na hora de ler, mas o exercício é bem fácil: feche os olhos e imagine um frequentador da Padre Chagas. Agora, mentalize um morador da periferia. É, você sabe do que estou falando.
Esse preconceito embutido em nós se dá através dos estereótipos produzidos. No fundo, eles são fruto de uma construção que dissolve o centro urbano em guetos e tribos frequentadoras, seja por opção, por necessidade ou por possibilidade. Essa construção é baseada na velha mania humana de demarcar território. Nada mais animal que isso. Somos animais, mas a gente renega essa metafísica em nome de uma (suposta) capacidade de pensar. Os territórios urbanos são a consequência mais natural do ser humano em formar um mundo que é seu. Quem vai na Padre Chagas, lá está porque se enxerga nos outros. Da mesma forma que o frequentador da Cidade Baixa procura o local para enxergar “outros eus” nas mesas de bar ou caminhando nas ruas do bairro. É impressionante a repulsa que o ser humano tem em tudo que não é espelho. Somos tribos, devidamente colocadas em nossos lugares – de fala, de moda, de comportamento ou de existência.
Mas, depois dessa breve apresentação sociológica, voltemos ao Fantástico. A edição de ontem (05/07/2020) mostrou uma ação de profissionais que tinham como função fiscalizar as aglomerações no Rio de Janeiro. Ao interpelar um casal, o diálogo apresentado no programa foi o seguinte:
Homem – “Não vai falar com seu chefe, não?”
Mulher – “A gente paga você, filho. O seu salário sai do meu bolso.”
Homem – “Cadê sua trena? Quero saber como você mediu sem trena!”
Fiscal – “Tá, cidadão”
Mulher – “Cidadão, não. Engenheiro Civil. Formado. Melhor do que você!”.
É, no mínimo, curiosa a maneira com que essa pseudoaristocracia brasileira se vê. Existe, de forma (in)consciente, uma espécie de hierarquia mental em que alguns aspectos se sobrepõem a outros, num tipo de campeonato brasileiro de seres humanos. Numa live com personagens do cinema gaúcho, uma cineasta, falando sobre os motivos de termos poucos filmes realizados por negros e, consequentemente, quase nada sobre a temática, lá pelas tantas, soltou: “Nossos sobrenomes… [lista], como que a gente vai fazer um filme de senzala?”. E, complementou: “eu tenho sangue francês”. Claro que já houve a famosa “nota de repúdio”, o famigerado “pedido de desculpas” e o conversa-pra-boi-dormir “todos os dias precisamos nos desconstruir”. O que pareceu uma justificativa sobre as razões de praticamente não existirem filmes sobre negros no Rio Grande do Sul soou mais como uma espécie de orgulho étnico próprio. Hierarquicamente, o “sangue francês” não pareceu uma constatação; pareceu o relato de uma virtude.
Assim fala a aristocracia brasileira. Seja pela descendência do “sangue francês”, pelo sentido de autoridade de um “formado” ou pela arrogante e decrépita miséria do “eu pago seu salário”, formamos uma hierarquia invisível na construção e cruel na prática. Quem ganha mais, quem estudou mais ou quem tem traços de “civilização europeia” tem vantagem sobre o todo. É a marca de uma aristocracia que destampa as mais abjetas intenções de se preponderar sobre o outro. Mesmo que marquemos carimbos de antirracista ou antifascista nas redes sociais, uma hora a gente enxerga a sujeira debaixo do tapete. A voz da aristocracia está nas nossas relações, falando em francês do Bom Fim ou em diploma do Leblon. No fundo, é só gente que realmente se enxerga como melhor que os outros não por valor ou virtude; mas por uma meritocracia interna que nunca se importou em jogar aqueles que consideram menos virtuosos para seus guetos.
Uma vez, entrevistei uma moradora da Cidade Baixa que era contrária ao carnaval de rua no local. A resposta foi: “não tenho nada contra as pessoas se divertirem, mas por que elas não fazem isso nos seus bairros? Por que precisam vir para o MEU BAIRRO?”. Numa inspiração em “Haiti”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil (procure a letra, você vai entender a referência):
“O elevador de serviço é um benefício do condomínio que é pago pelo salário do formado no bairro em que outros formados pagam pelo elevador de serviço para que os não formados e não moradores não sejam confundidos com os formados moradores do bairro e que pagam seus salários”.
