A live que Caetano Veloso fez na última sexta-feira foi maravilhosa. Espetacular. Um manifesto de beleza em tempos de ódio, rancor e ressentimento. Caetano está calmo. Não era assim. Quando ele cantou Reconvexo, lembrei que essa música foi feita para Maria Bethânia gravar, em 1989, como resposta a um ataque do jornalista Paulo Francis de seis anos antes. Em 1983, num programa para a recém inaugurada Rede Manchete, chamado Conexão Internacional, apresentado pelo jornalista Roberto D’Ávila, Caê foi convidado a entrevistar o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Francis detonou a entrevista, constrangendo Caetano. A resposta veio em forma de música. Vingança é um prato que se come frio. Todas as falas de Francis contra a cultura brasileira, a Bahia, o futebol, o carnaval e os ícones da cultura pop, foram milimetricamente transformadas em letra. Um manifesto contra os caretas. Contra o careta.
Caetano, o mesmo que fez música para um monte de gente, mudou. Ele não é mais aquele cara que respondia ao que ele não gostava. Até o faz, mas como um senhor de 78 anos, leve como um baiano de família. Caetano virou mais Gil, que sempre foi brejeiro, cheio da brisa e da bossa. Caetano era mais punk, revoltado e ansioso. São os filhos ou o envelhecimento. Cantou com Moreno, Zeca e Tom, no ofertório que desfilou mais de 30 canções, em arranjos lindíssimos, surpresas pontuais e interpretações memoráveis de velhos sucessos. Leve, em casa, minuciosamente despojado, mas superproduzido, longe de ser artesanal.
Ele sempre foi antropofágico e, por vezes, contraditório. Fez canção e estética de protesto, mas sempre com um pé na ripongagem de uma cuca Odara que questionava “pra quê tanta notícia?”. Inventou um anglo-baianês dizendo a todos “I’m alive, mas vivo muito”. Cruza os anos 1980 entendendo o pop da época e abraçando os modismos que passavam em seu caminho: foi A Cor do Som, foi Ritchie, foi Paul Simon, foi Carlinhos Brown, foi Bob Dylan, foi crooner, foi João Gilberto e até foi Arctic Monkeys. Camaleônico como Bowie, comercial como Michael Jackson (ele cantou Billie Jean e Black or White, claro). Esperto como Caetano. Sua anteninha não sintonizava as mesmas coisas que Gilberto Gil, que reprocessou Bob Marley, Chico Science e Luiz Gonzaga. Nem era sofisticada como a de Chico, que era Tom até o fim. Era uma antena poderosa, de rádio FM, capaz de buscar a essência da música brasileira e misturá-la com o zeitgeist: tudo em Caetano é espírito de um tempo que ele, de forma genial, captura e transforma em música. A live mostrou isso: não é um Caê clássico, é um Caê que conversou com Céu, Kassin, Moreno, Criolo. Não é mais um neotropicalismo – até porque Caetano só foi tropicalista mesmo com a Tropicália. É um Caetano do Instagram, da nova MPB, minimalista de propósito, (des)pretensioso por energia.
Caetano Veloso nunca fez sucesso comercial. Apenas uma música atingiu o topo das paradas: Sozinho, em 1999, composição de Peninha, transformada em bossa cantinho-violão, voz adocicada, apresentação ao vivo no CD Prenda Minha – disco de maior vendagem do cantor. Sozinho não representa a obra de Caetano, mas representa o que é Caetano para o público. Ouso dizer que o segundo maior sucesso do artista seja aquele vídeo no YouTube em que fala “como você é burro, cara!”. Porque, veja bem, é 2020: um meme é maior que uma canção.
Poucos artistas da MPB chegaram ao sucesso popular. Quando obtiveram, foi por linhas tortas. Gal precisou do Balancê, da Festa do Interior e do Sullivan e Massadas. Tim Maia precisou cantar sobre amor. Elis não foi uma hitmaker nem post mortem. Na lista dos 60 artistas que mais venderam discos na história do país, dos artistas da MPB tradicional, apenas Maria Bethânia, Marisa Monte e João Gilberto figuram numa relação que conta com nomes como Trem da Alegria, Rose Nascimento, Calcinha Preta, Gretchen e até o nosso Teixeirinha. O rock também está meio capenga nessa lista, embora com dignas vendagens de Rita Lee (que teve que abraçar o pop no final dos anos 1970 para chegar ao quarto lugar na relação), Legião Urbana e Sepultura (que vendeu muito mais fora que aqui no Brasil).
A MPB comove por estética e por legado, mas, quando é para alcançar o povo, não decola. Seja por motivos diversos (que nem cabem aqui neste espaço), o público consome outras coisas. Por mais que Caetano experimente as tendências do zeitgeist – o espírito do tempo -, existe ali um discurso bem mais inacessível que o de um sertanejo universitário cantando sobre sofrência. O que é esperado. Historicamente, a intelligentsia brasileira sempre se afastou do que é popular. O pop é comercial demais, superficial demais, alcança gente demais. Exceto quando Caetano canta, seja para ficar Odara ou para que sua estúpida retórica tenha que soar e se ouvir por mais zil anos, como um comportado pai de família, cantando de forma brilhante e reinventando a carreira mais fabulosa e instigante da música brasileira. Sem o popular que a MPB, de forma cínica, carrega em sua alcunha.

