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O culto ao ídolo morto

Por Carlos Guimarães

Nesta última semana, fez 31 anos da morte de Raul Seixas, o maior roqueiro brasileiro de todos os tempos. Nenhum artista personificou tanto o tal do rock and roll como Raulzito. Poucos eram tão fãs do estilo em sua essência, bebendo direto na fonte (ou no sangue) de Little Richard e de Bill Haley, travestindo-se como um rockabilly original, sem pastiches, misturando o be-bop-a-lula do Gene Vincent com o baião de Luiz Gonzaga, mais antenado que os intelectuais, mais antropofágico que os tropicalistas, mais original que os jovem-guardistas, mais crível que os mpbistas.

A conexão de Raul com o mundo não era pela sofisticação do Carnegie Hall e nem pelas cópias descaradas banhadas ao luar. Era uma miscigenação autêntica, capturada por um visionário que tinha em si uma aura meio extravagante, meio messiânica. Raul acreditou menos na extravagância e mais no messianismo, quando concebeu, ao lado do parceiro Paulo Coelho, uma série de álbuns incríveis nos anos 1970, como Krig-ha Bandolo!, Gita e Novo Aeon. Envolvido pelo ocultismo, pelas drogas e por essa vocação de líder espiritual, pregava uma sociedade alternativa que nem chegou a existir. De tempos em tempos, o Brasil elege seus messias (o trocadilho fica por conta do leitor). Raul foi o messias da loucura para os outros e do calvário para si. Da mesma forma que irrompeu o careta star-system da música brasileira, abraçou, segurando uma garrafa de uísque, um ostracismo empurrado pela sujeira da indústria fonográfica brasileira, com complacência dos velhos mecenas e dos jovens deslumbrados. Ainda vivo, o “rock brasileiro dos anos 80” desprezava o “rock brasileiro dos anos 70”.

Sem eira nem beira, sem gravadora e nem saúde, Raul só foi revitalizado quando, cambaleante e trôpego, sentiu-se acolhido por Marcelo Nova, no fabuloso A Panela do Diabo (1989). Já era tarde. Raul se foi, esquecido em vida, cruelmente idolatrado em morte. O culto ao ídolo morto é uma característica brasileira. Parece que a única homenagem possível é, citando uma música que ouvi recentemente, “turn me into a street”. É a placa, o busto, a triste e chinfrim homenagem dos vivos ao morto. Quando estava sem grana, a indústria soltou um “nós não vamos pagar nada” para Raulzito, enquanto ele juntava os cacos de voz, talento e mínima dignidade para se manter relevante. O rock errou, disse o Lobão, mas não foi bem onde ele achava. O rock errou quando deu as costas para o próprio rock, para Raul, sem bênção de seu conterrâneo Caetano (que recrutava, sob sua batuta, gente bem menos talentosa), sem o “chega mais” dos ensolorados do Circo Voador (“a gente é jovem demais, surfa demais, tem bronze demais, é chopp e batata frita demais”) e sem a falsa condescendência da MPB (“aceitamos Sullivan e Massadas, é sucesso, mas Raul é doido demais”).

O resultado foi o que a gente viu. Não adiantou nem um Pluct-Plact-Zum para levantar Raulzito. Eram estranhos aqueles finais de anos 1980. O rock já era um pastiche de si mesmo, o sertanejo dominava as paradas e Cazuza, depois de uma terrível exposição de sua doença, passava a assumir (in memoriam), da mesma forma, esse esquisito caminho do poeta martirizado. Raul, sem ver pra (nem) crer, virou um ídolo repentino. Copiado no visual, no vestuário e no timbre, ganhou um “Toca Raul!” como improvável legado. Raul merecia mais que isso. Ele não é só um roqueiro hippie estereotipado. Ele é, ainda, a maior expressão do rock brasileiro em sua história. E, ao invés de uma valorização viva de sua figura, esperou-se vê-lo partir para que fosse, de fato, mitificado.

Ah, os mitos brasileiros (trocadilhos por conta do leitor)! Os ídolos brasileiros! Aqueles que precisam mais de aval dos outros do que de reconhecimento histórico! Aqueles que precisam sofrer as trevas do ostracismo para renascer post-mortem em forma de gênios incompreendidos! Aqueles que precisam da mitificação do fim em vez da alegria do durante! A gente não sabe aproveitar nossos ídolos. A gente não sabe ter ídolos. A gente só quer saber de mitos, mais por aquilo que a gente constrói do que por aquilo que eles são. Que o próximo messias nos salve! Trocadilhos… bem, você já sabe.

Autor

Carlos Guimarães

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