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A volta da TV aberta

Por Carlos Guimarães

No cinema, chama-se de reboot quando uma antiga franquia é retomada muito tempo depois. Pode acontecer repaginada, como “Creed” foi o reboot para a série “Rocky”, ou, mesmo, uma continuação para uma nova geração, como ocorreu com “Indiana Jones”, “Duro de Matar” e “Rambo”. Stallones à parte, vou pegar o termo emprestado para escrever sobre a semana mais movimentada para o telejornalismo esportivo em muito tempo.

Quando começaram a surgir notícias de que a Globo passara a renunciar a eventos como a Libertadores, do interesse de outras emissoras em competições esportivas e a retomada de projetos bem sucedidos que pareciam abandonados pelas redes de televisão, admito que fiquei com um pé atrás. Achei que era uma brecha para que os serviços de streaming entrassem com força e que seria uma questão de tempo para que os campeonatos fossem exclusivos de plataformas online. Escrevi sobre isto e, imediatamente – também por conta de um histórico não-recomendável -, tomei ciência de que seria – de novo – uma espécie de anacrônico inimigo da inovação.

Sou favorável à ampliação do mercado, que gera novas possibilidades, movimenta o meio, desfaz zonas de conforto, gera empregos e alarga as opções. Meu medo era justamente a aceleração de um processo de elitização que já acontece no futebol, com vários exemplos que podem ser apresentados: desde a construção das Arenas, algo inevitável, mas, também, um fenômeno que encarece o esporte, até a diminuição da prática esportiva nas ruas, com o aumento do apelo pelos videogames, tinha a impressão que o sentido de o futebol ser o esporte mais popular do Brasil estava sendo desvirtuado.

Ainda acredito nessa tendência. Mas, neste domingo, o do 20 de setembro, abri um sorrisão quando vi Elia Jr. e Glenda Kozlowski abrindo o “Show do Esporte” na Band; quando ouvi o slogan “canal do esporte” sendo dito pelos profissionais da emissora; quando vi a transmissão de eventos ao vivo e produção de conteúdo para preencher uma programação que dura um dia inteiro; e, enfim, quando percebi que o sentimento de saudosismo que me fez acompanhar a atração deu lugar a um saudável otimismo para o futuro do jornalismo esportivo brasileiro.

Na última quarta-feira (16 de setembro), o SBT fez sua primeira transmissão dos jogos da Libertadores 2020. Se a Band tem no DNA o jornalismo esportivo, não se pode dizer o mesmo do SBT, emissora que teve como principais atrações em sua história, os programas de auditório, o jornalismo popular e, claro, o Chaves. O Chaves já não está mais lá, Sílvio Santos não é mais o mesmo e o Aqui Agora, se voltar, não terá mais o Gil Gomes. Mas os tempos são outros. É o novo normal. E o SBT resolveu fazer futebol como gente grande, como já havia feito lá em 1995 com a Copa do Brasil e como tinha tentado nas coberturas de Copa do Mundo nos anos 1990.

O resultado, evidentemente, foi o esperado: a maior audiência do horário foi para a emissora do patrão. Nas redes sociais, o novo Show do Esporte esteve entre os assuntos mais comentados no dia – nostalgia é indústria, você sabe disso. Embora seja cedo para definir a longevidade dos projetos, até porque SBT e Band têm um perigoso histórico de mudar programação toda hora, um dos maiores erros de gestores de veículos de comunicação, é preciso saudar além do saudosismo as duas iniciativas. Não é por causa de uma suposta aversão ao streaming – algo, que, como já afirmei, não tenho. É pela democratização de transmitir no – ainda – meio de comunicação mais popular do país uma partida de futebol ao vivo.

Perceberam, finalmente, que, mesmo sendo Leipzig x Mainz ou um jogo de Libertadores, o futebol é um grande negócio. É uma das mais genuínas manifestações de narrativas televisivas – para mim, já ultrapassou a telenovela e, nesse ambiente contemporâneo, só perde para os reality shows – na sociedade do espetáculo, preconizada por Debord lá atrás e escancarada nos olhares dos telespectadores no Brasil 2020. E, mais do que nunca, pode significar a salvação do formato de TV aberta a partir de um paradoxo: aquilo que era “produto da TV a cabo” se transforma em carro-chefe de emissoras tradicionais, espantando a ameaça potencializada pelo deslumbramento dos streamings e, se houver sucesso, matando a TV a cabo. Mas aí o problema será deles. Será a hora deles se reinventarem. Não é possível que eles ainda não entenderam que não tem mais graça reprisar “Busca Implacável”, “Velozes e Furiosos” ou “As Branquelas” duzentas vezes por mês. Por mais de duzentos reais por mês.

Autor

Carlos Guimarães

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