Numa época não muito distante, um determinado estabelecimento queria impulsionar sua marca. O dono do restaurante teve a ideia de entrar em contato com uma pessoa que fazia resenhas gastronômicas. Pensava ele que era tudo na base da honestidade, aquela coisa que o brilhante Guia 4 Rodas fazia: sujeito vai lá “à paisana”, pede o rango, paga a conta e depois se identifica como um jornalista. A rigor, nem precisava. Uma avaliação jornalística não precisa da validação do avaliado. O senso crítico dispensa tal condescendência. Todavia, era um processo que conferia um certo grau de autonomia a quem fosse escrever sobre, no caso, comida.
O dono do restaurante ouviu a seguinte resposta: “por menos de tantos mil reais, nem saio de casa”. Foi quando ele entendeu que, para ser resenhado, para ter o nome de seu local estampado num jornal ou num site, teria que pagar por isto. A gente não cospe no prato que nos paga, certo? Como confiar em alguém que vai escrever que o restaurante de uma determinada pessoa é bom depois de ter sido pago por ela?
O jornalismo gastronômico morreu. É resenha paga. É publicidade. Assim, surgiram os influenciadores digitais. Fiz um programa sobre este tema no canal que participo no YouTube, o Sexta-Feira 13. Embora reconheça a força da categoria dos influencers, ainda não me dei por convencido de que essa estratégia de marketing (jamais de jornalismo) é, de fato, saudável. Sei da honestidade de muitos deles. Sei que muitos escrevem ou falam aquilo que pensam. Mesmo assim, é difícil conceber que exista uma profissão que sirva para influenciar os outros.
Foi quando me dei conta que isso sempre existiu. É a razão de ser da publicidade. É natural no jornalismo, quando o rótulo de “formador de opinião” é atribuído a algum profissional. O mundo é um ambiente de persuasão. É um ato de convencer e de se convencer diariamente. Eu convenço meu público de que meu trabalho vale à pena. Eu sou convencido que preciso comprar alguma coisa pela propaganda. A priori, é uma relação primária, intrínseca e de natureza humana. Antes de qualquer relação que a gente pode ter, a gente precisa ser convencido de que é uma relação válida. Serve para a vida. Serve para o consumo. Serve para nós.
A profissão de influenciador digital é, portanto, uma manifestação das ilusões e desejos dos seres humanos. Ela existe porque a gente quer ser influenciado. Ela existe porque a gente quer influenciar. Há uma fragilidade no que é original, que implica uma necessidade de pertencimento. Quando alguém nos convence de algo, o movimento é claro: a gente passa a pertencer.
O problema é que isso causa o fim da virtude. E, quase, o fim da honestidade. Estamos comprando gato por lebre porque a figura que eu e mais uns 200 mil vimos no canal de YouTube diz que gato é lebre. E a gente acredita. Acredita porque, afinal de contas, quem tem milhões de seguidores não mente. O tal do engajamento matou a virtude. Na era dos robôs virtuais, somos aqueles que alimentam o desvirtuamento e estimulam o nosso processo de coisificação. Somos “coisas”. Mas a sutileza disso é que os influenciadores também viraram “coisas”, reféns do próprio ego e de alguns boletos para pagar. Coisas que convencem coisas dizendo que coisas são boas e fazendo coisas acreditarem que essas coisas são boas. Se não há virtude, não há crítica. E, se não há crítica, deixamos de ser humanos. Tornamo-nos coisas.

