
“A saudade faz as coisas pararem no tempo.”
Mario Quintana.
Era quase um culto religioso. Com chuva ou com sol, aqueles remadores alemães se reuniam na várzea do Moinhos de Vento para jogar um tal de fussball. Haviam trocado as águas geladas do Guaíba pelo novo esporte que chegava a Porto Alegre. Se divertiam como crianças grandes – era uma uma alegria que contagiava. Lembro o pai chegando em casa, rosto afogueado, olhos brilhando e chuteiras cobertas de barro. Decerto que ele e os amigos haviam feito uma escala no Lilliput para matar a sede com brindes de Steinhäger e canecas de cerveja Bock.
Ainda existem vestígios daqueles luminosos domingos no Prado – alguns troféus oxidados e muitas fotos amareladas, onde se viam os atletas de domingo exibindo jerseys de mangas longas com o escudo do clube no lado esquerdo do peito. Muitos anos depois, alguns remanescentes – agora de fatiota, chapéu e gravata – voltariam à antiga várzea para um novo esporte: ver correr os cavalinhos.
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Desde então, Porto Alegre mudou de rosto e de estilo de vida. O Jockey Clube migrou para o bairro do Cristal e os trilhos do bonde Prado foram soterrados pelo asfalto da modernidade. Mesmo assim, alguns casarões da Independência e da 24 de Outubro ainda lá permanecem, silenciosos mas eloquentes. Ao refazer aqueles caminhos, voltam vestígios de memória, como quando abrimos um velho álbum de fotografias.
Nas tardes preguiçosas de domingo, havia por hábito demorados passeios até a nova Hidráulica dos Moinhos de Vento ou Caixa D’água, como se dizia na época. Caminhando sob plátanos e jacarandás, brincávamos de contar os automóveis que desfilavam na avenida – Chevrolets, Fords, Buicks, Oldsmobiles, Studebakers e às vezes um raro Cadillac, “rabo de peixe”.
Enquanto isso, nosso pai identificava as famílias que habitavam os belos palacetes franceses. Quase todos, nomes herdados de imigrantes que construíram a vida no comércio e nas fábricas. Eram nomes conhecidos e respeitados na cidade. E o pai apontava as fachadas ornadas de vitrais e gradis de ferro forjado na Europa:
“…Ali moram os Bromberg e lá, do outro lado da rua, os Becker…”
Na volta, descendo a Ramiro Barcelos, passávamos pelo casario onde vivia gente conhecida. Aqui, ficavam os Dreher e lá, os Dischinger. Mais perto de casa, os Steigleder, Borralho e Meneghetti. Figuras de lenda do tempo em que se sorria ao dizer Bom Dia, os homens tirando o chapéu e as mulheres, afastando o véu do rosto para responder.
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Hoje, até os sons das ruas estão mudados. São impessoais e não se sabe de onde vem. Que fins levaram a cantoria dos sabiás-laranjeira na figueira de casa? E o piano que soava no sobrado da esquina? Onde as conversas nas cadeiras nas calçadas? Também havia o galo madrugador de Dona Zaida. E também desapareceram os bondes-gaiola amarelos, que guinchavam na curva da Mostardeiro com a 24 de Outubro.
Talvez por tudo isso, o poeta Jorge Luiz Borges escreveria, ao revisitar ruas e praças da Buenos Aires de sua mocidade:
“O passado é indestrutível.
E, cedo ou tarde, ele vai retornar.”
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