Jean Baudrillard (1929-2007) é o mais desafiador e instigante autor que encontrei na minha vida. Para ele, o desaparecimento das coisas – e da realidade – não se dá pela escassez; dá-se, ao contrário, pelo excesso. Pela saturação. Seria inútil qualquer tentativa de explicar algum sentido para as coisas, porque não há mais as coisas, a não ser em forma de simulacro. Ou de simulação. Mesmo, de dissimulação.
Seria muita pretensão minha falar de Baudrillard. Não é sobre ele essa coluna. O Juremir conheceu o filósofo, sociólogo e fotógrafo. Foi orientado por ele. Traduziu suas obras. Eu, como empolgado aprendiz, escrevo sobre a perturbação que seus livros causam em mim. Existe uma certa arrogância na filosofia em querer explicar um sentido de mundo. É inútil. O mundo, talvez, seja apenas um lugar para ser vivido, experimentado. Não existe para ser explicado. Como eu poderia ter a solução para as coisas? Elas estão aí para ser interpretadas: somos intérpretes dos fatos numa era em que nos exigem explicação para eles.
Mas, na era da hipermodernidade, de uma nova hiperverdade – que vai além da pós-verdade -, até o fato já morreu. O fato desapareceu pelo excesso. No período hiper, também somos hiperconectados, hiperinformados, hiperengajados, hiper-sabemos-de-tudo. Se tudo sabemos, interessa mais a nós esse “tudo saber” que o confronto diante dos fatos. Pra quê tanta notícia? Porque elas importam, mas elas já se tornaram excessivas, excedentes, superfaturadas. A informação também é um excesso e as redes sociais comunicam mais por esse sentido de “saber tudo” que, efetivamente, ser um fluxo onde a gente toma conhecimento das coisas. As redes sociais são o instrumento perfeito dessa hipermodernidade. Se, no final das contas, tudo se esvai pelo excesso, criaram algo mágico, em que tudo se alimenta do excesso para continuar a girar.
A sociedade do excesso é o palco que está prestes a desabar. Se o texto pareceu uma rápida, rasteira, superficial e pretensiosa missiva filosófica que sai do nada para lugar algum, é porque também pequei pelo excesso. Vamos trazer isso para o cotidiano? Quantas vezes vocês já não se depararam com aquele sentimento de “eu não aguento mais isso”. Aconteceu comigo. Teve Grenal no fim de semana. Mais um no ano. As mesmas ladainhas de cá e de lá, dos dois lados do balcão. Tudo aquilo que me alimenta e que alimenta o imaginário de um torcedor fanático por futebol presente. As mesmas pautas. Ouvir ex-jogadores. Dá-lhe entrevistar o Iúra para falar do gol mais rápido da história dos clássicos. Aquela história do Jurandir ter marcado o Falcão. O Grenal do século, o Fabiano nos 5 a 2, o Grenal do fato novo, o Grenal da pancadaria, o Grenal daqui, de lá, de tudo que é lugar. É quase uma hipocrisia particular. Cuspo no prato que como não por ingratidão, mas por, novamente, excesso.
Baudrillard inspirou Matrix, o filme. A falha na matrix, se vocês viram o Neo ou a série Dark, é uma espécie de déjà-vu, que é a ilusão de algo já vivido. O Grenal do sábado foi um déjà-vu provocado pelo excesso. Foi o Grenal do excesso. Ele não vai terminar, porque o único antídoto que evita o excesso é a tradição. Somos tradicionais demais para se desapegar das formações culturais. A tradição é a dispersão do excesso: apoiamo-nos nela para justificar os excessos. Provar que eles existem porque precisamos deles. É, enfim, quando me encontro mais uma vez inquieto por causa de Baudrillard. A tradição não é mais uma manifestação do que é real, mas também não existe como simulacro; mantém-se viva, muitas vezes, por dissimulação. A hipermodernidade é, tão somente, a dissimulação da própria tradição, transformada em excesso como sentido para as coisas.

