Desde 16 de março, uma segunda-feira quente e ensolarada de 2020, quando mergulhei nesta fase necessária de confinamento e que, a princípio, não parecia que teria uma duração tão longa, tento variar os assuntos tratados aqui no site. Uma semana escrevo sobre as trapalhadas e asneiras do presidente, na outra sobre os atos de racismo que ocorrem em todos os cantos deste imenso País, ou sobre a urgência de se debater o feminismo e muito sobre a paixão pela filha e pelo neto canino. Para evitar de só falar sobre a Covid-19, isolamento, tristeza por estar trancada em casa e da irresponsabilidade dos negacionistas.
Mas, nesta quarta-feira, 28 de outubro, ao completar 227 dias de distanciamento total, amanheci mais amarga e com um grau de irracionalidade elevado, ao ver tanta barbaridade, tanto descaso, tanta irresponsabilidade e desrespeito com os mais de 157 mil mortos pela Covid-19, 549 óbitos nas últimas 24 horas e 29 mil casos novos confirmados no mesmo período. Não é pelo meu mais completo isolamento, sem abraçar meus afetos, sem acarinhar minha filha, sem brincar com o neto canino, sem ver familiares, sem confraternizar com amigos (as). É uma raiva pelo descontrole da doença e pelas famílias que choram seus mortos.
E enquanto isso, cresce o número de pessoas – babacas, negacionistas e ignorantes – que desprezam a importância da vida dos outros e pensam apenas na mediocridade e futilidade da própria rotina. Façam todos um esforço e saiam apenas para o essencial e nisto incluo trabalho (se não está no famoso home office), compras em supermercado e farmácia, urgências e exames de saúde e emergências. Todo o resto é supérfluo e pode esperar. Não me venham dizer que o isolamento está difícil (a situação é igual para todos), que o coração está disparado de saudades (controle suas emoções) e blá, blá, blá.
Tudo não passa de desculpa esfarrapada para justificar sua fraqueza, sua falta de empatia, seu desprezo pela vida dos outros. É a turma do Leblon no Rio de Janeiro, o povo que invade a Orla do Gasômetro sem máscaras e sem cuidar o distanciamento mínimo aconselhado, a comunidade descolada da Cidade Baixa que ocupa as mesas dos bares nas tardes e noites dos finais de semana tudo junto e sem proteção. Lá no fundo, mas bem lá no fundo, quem descumpre o isolamento tem uma lista infindável de motivos para fugir do confinamento e até classifica as saídas desnecessárias como essenciais.
Pois saiba, fulano do bando de Alecrim Dourado que festejar com as amigas não lidera a lista de atividades prioritárias e é melhor, juro por todos os santos e oxalás, matar as saudades de quem está vivo e quando se está vivo. Que uma rodada de chopes em um bar fechado não é aconselhável. Pode esperar. E as mesas ao ar livre só são permitidas obedecendo o distanciamento e com máscaras. É chato, mas o momento exige. E se você não vê seu amigo desde março, quando se iniciou a pandemia, não importa se ele mora num sítio e a conversa foi ao ar livre. Sua atitude pode contribuir para mais mortes.
Sou geminiana com ascendente, sol e lua e demais posições tudo em gêmeos, o que indica um nível de instabilidade e bipolaridade ao extremo. Logo, não sou uma pessoa de fácil e sossegada convivência. Nem sou heroína e bem longe de ser perfeita (nem sempre admito as minhas falhas, mas elas existem). Se eu, com tantas incongruências prossigo firme e forte no isolamento, não é um fato impossível. Requer assiduidade nas aulas de responsabilidade e empatia e uma preocupação com o coletivo. Sigo contando os dias sem saber ainda quantos faltam. Mas com uma consciência tranquila e sem assinar atestado de óbito de ninguém.


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