
“Sinto que sou ninguém, salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra.”
Alvaro de Campos.
Pode-se dizer que Fermino das Dores era um homem singular. Trabalhava em silêncio, escondia suas habilidades e só falava o que era preciso. Quem não o conhecia de perto, imaginava um simples peão, um homem de serventia. Mas os que conviviam com ele, sabiam de suas valias, apesar daquele olhar perdido e do jeito caladão. Confiavam ser herança dos tempos sombrios, quando se andava com a garrucha engatilhada e a adaga afiada.
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Mas era um homem apreciado por todos. Além de sua intimidade com o campo e os bichos, sabia ler nas estrelas e contava estórias com grande maestria. No cair da noite, ao redor do fogo, depois das fainas do dia, os homens se agrupavam para ouvir estórias de revoluções, com heróis e vilões que existiram de verdade.
Mas em uma ocasião ou outra, quando lhe dava na telha, Fermino das Dores tirava do baú casos de arrepiar os cabelos da nuca.
Como aconteceu certa noite, quando o vento assobiava nas frestas do galpão e a cachorrada se encolhia nos cantos. Fermino chegou quieto, deu boa noite e tomou seu lugar no tronco de angico.
Olhou ao redor e disse que ia contar um caso misterioso, capaz de assombrar até homem valente. Silêncio na roda, o fogo crepitando e se tinha a impressão que até o vento cessara. E isso foi o que ouviram:
“- É um caso esquecido, que se sucedeu nos tempos de revolução, quando os campos se tingiram de vermelho com a mortandade. Aconteceu não longe daqui, quando um piquete dos farroupilhas foi emboscado pelos imperiais. Não sobrou um vivo, todos abatidos a tiros de mosquetão ou furados a baioneta. Enterraram os corpos no campo dos Vasconcelos, sem direito a pai-nosso e água-benta. Nem cruzes foram plantadas, para que seus nomes fossem esquecidos.
Um dia a guerra terminou, os soldados voltaram para casa, mas os farroupilhas continuaram esquecidos. Então, nas noite sem lua de agosto, aparecem as almas penadas para assombrar os viajantes que passam perto do cemitério. Na vila, os moradores mais antigos alegam saber quando as almas vão aparecer. É quando o portão de ferro do cemitério range, balançando ao vento, mesmo nas noites sem vento…”
Houve um estrondo da porta do galpão se abrindo, tocada pela ventania. Fermino puxou a gola do poncho e continuou:
“- As mulheres devotas, penalizadas, foram pedir ao novo pároco que benzesse as sepulturas para findar com a maldição. O padre, muito jovem e sem saber o que fazer, alegou que precisava de autorização do bispo. Escreveu uma carta e ficou esperando. Se passaram um mês, dois meses e nada da resposta do bispo, que certamente tinha coisas mais importantes para cuidar.
Finalmente, Agosto chegou e seus ventos gelados. A vila sentia que alguma coisa estava prestes a acontecer – e na verdade, aconteceu.
Em uma noite sem lua, alta madrugada, quando todos dormiam de portas e janelas bem trancadas, se ouviu um sino tocar finados. Espanto geral, pois o único sino existente na vila chegara há pouco da Capital para tocar na festa de São Pedro. E o que deixava a gente muito aturdida era que o tal sino nem havia sido instalado na torre, pois faltavam contra-pesos e a corda do badalo.O jovem pároco, o mais assustado de todos, tomou coragem, benzeu-se duas vezes e galgou de dois em dois degraus a escada da torre da capela.”
Fermino fez uma daquelas pausas que deixava as pessoas roendo unhas. Então, concluiu, sem concluir:
“- Ninguém acreditou no que o pároco disse ter visto na torre da capela. E até hoje, quando as pessoas mais velhas passam pela praça da vila, evitam olhar para onde devia estar o sino e se benzem três vezes.”
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