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Quando só há um lado a se defender

Por Carlos Guimarães

A gente aprendeu que o Brasil foi descoberto em 1500, que o “independência ou morte!” foi um grito de liberdade, que a Guerra dos Farrapos não foi uma batalha perdida e que os negros ficaram livres depois que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em 1888. Bom, os jornalistas também aprenderam que nossa atividade é essencialmente imparcial e que existem dois (ou mais lados) na notícia, então não é só uma coisa de ensino fundamental aquilo que nos lançam como famosas mentiras repetidas mil vezes que se tornam “verdades”, assim, entre aspas. É que com o tempo, aprendemos que as coisas não foram dessa forma. Não são dessa forma.

Entre aquilo que nos ensinam e aquilo que a gente vê, existe uma enorme distância. Não é nem temporal. É prática. O cotidiano nos apresenta a brutalidade de uma rotina que nenhum “conto de liberdade” mostrado a nós de fato mostrou. O cotidiano soca, empurra e derrama, com sangue e lágrimas, o que a gente fingiu, por conveniência, cultura ou ignorância, que não existe. É engraçado, por exemplo, quando dizem que não existe racismo no Brasil. É uma espécie de terraplanismo cultural. Eu não sei que nação enxergam ou as pessoas que fazem parte desse convívio. Quer dizer, eu sei. São as mesmas que o cotidiano apresenta como bem-sucedidas, poderosas e dominantes do poder. Domine a opinião pública e tudo será mais fácil.

Essa nação, uma República Federativa cheia de árvores (as que não foram queimadas) e gente dizendo a Deus (o trocadilho é proposital, não fiquem chocados), insiste, nos últimos 132 anos, em varrer o racismo para debaixo da confortável manta da hipocrisia. Lembro que em 1988, o Carnaval carioca celebrou os 100 anos da Lei Áurea. Alguns enredos mostravam a liberdade de um povo que poderia ir e vir, misturados com a massa branca em pé de igualdade. Somos miscigenados, eles dizem, sob a irreparável diretriz de que “todos são iguais perante a Deus”. Olha, se derem uma olhadinha aqui para baixo, neste país com palmeiras onde cantam os sabiás, vão perceber que as aves gorjeiam de formas diferentes.

O brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas no supermercado Carrefour, zona norte de Porto Alegre, a 800 metros de onde me criei, espancado por dois seguranças, possivelmente, deve ser o próximo incômodo que vão tentar varrer para debaixo do tapete. Também é engraçado ouvir que “todas as vidas importam”. É muito estranha essa premissa da igualdade quando ela parte dos… brancos. Porque, para o negro, essa igualdade não existe. Um negro num supermercado é um suspeito em potencial para quem domina o discurso do poder. E, se há este domínio, ele é criado conforme imagem e semelhança de quem o possui. O Brasil é um país mandado por brancos, que usam a desculpa de que somos miscigenados – mas uns mais que os outros – para perpetuar a ideia de que existe uma harmonia entre as pessoas. Ele é tão forte que faz com que alguns realmente acreditem nele, mesmo que o cotidiano desfaça essa máxima.

Mas estamos na era da pós-verdade: a gente fabrica o nosso cotidiano. Se não está na frente, não existe. E se está na frente, dá-se um jeito de não existir. Ou de ludibriar, engambelar, dissimular. Se um negro morre espancado por dois brancos, não é o negro que morre, é um homem que morre – sempre complementado pelo “não foi por causa da cor”. Engraçado que dificilmente um branco passa por isso. Deve ser uma estranha coincidência essa que faz com que brancos odeiem os pretos porque eles fizeram alguma outra coisa, mas não porque são pretos. Miscigenados, correção necessária.

É que nem a balela dos “dois lados da notícia” ou “versões da história”. Existe alguma outra versão, algum outro fato que não seja a morte de um homem negro nas mãos de dois brancos? Documentada, propagada e comprovada? Mas deve ser outra coincidência, porque tantos morrem nas mãos de outros no nosso violento cotidiano, certo? Como eu sou meio cético e não faço parte dessa massa que passa nos projetos do futuro e nem sou gente dizendo adeus (use o trocadilho como quiser aqui), digo-vos que, ali, temos a maior brutalidade racial cometida em Porto Alegre neste ano. Entre tantas que acontecem e você finge que não vê.

Se você não se importa, relaxe, a sujeira já foi varrida. Vamos celebrar a miscigenação em forma de festa e comemorar todo 13 de maio pela liberdade dos negros que os brancos disseram que eles tinham. Mas, volta e meia, a sujeira aparece em forma de sangue. Ele é nosso, dos brancos. Ele é de quem dissimula até a primeira esquina, atravessada com a desculpa de “prevenção” quando um negro se aproxima. E se você acha que essa história toda tem alguma outra versão, é sinal de que você acreditou demais no seu boletim estrelado quando aprendeu sobre o Brasil na sexta série. Ou, quem sabe, se for jornalista, confiou demais naquela dica de manual de redação dos anos 1970 que hoje só serve para embuste acadêmico. Se nem a lente das redes sociais – nem precisa ser do Fantástico – serviu, não é um bom sinal, meu caro amigo. Não existem dois lados. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Quanto tempo você levou para ler esse texto? Hora de pegar a vassoura, porque você pode ficar o dia todo varrendo. Ou passando pano, por preconceito, cultura ou ignorância. Ou por puro ódio mesmo.

Autor

Carlos Guimarães

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