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O peso que a palavra traz

Por Carlos Guimarães

Para quem eu escrevo? Para vocês ou para mim? Por que eu escrevo? Para atingir um público ou porque eu gosto? É bom escrever? Obviamente, só eu posso responder a estas perguntas. Pensei bastante sobre o que é escrever, sobre as razões de eu escrever e se eu deveria continuar escrevendo aqui e em outros canais. Há algum tempo, meu canal do Medium tem sido uma lacuna, um vácuo, ausente de novos textos. Ou melhor, repleto de drafts, rascunhos incompletos, ideias que vêm e se perdem rapidamente, sempre por três motivos: ou porque eu não tenho tempo, ou porque eu perco o fio da meada ou, por fim, porque eu me preocupo demais com o que o leitor vai pensar.

Da mesma forma, este espaço no Coletiva.net vem sendo negligenciado, desabastecido, esquecido. Existe uma fórmula para o texto, mas, acima de tudo, uma exigência de quem escreve sobre aquilo que se escreve. É onde entra o ato de escrever para mim. E, também, quando chega um paradoxo que não se resolve e que piora com o tempo. Quando eu tenho a obrigação de escrever para os outros, eu escrevo pior. A contradição é evidente: ora, eu sou um jornalista, que presta um serviço de comunicação, que, em tese, deveria produzir uma articulação, uma mediação, como colunista, entre aquilo que eu penso e aquilo que os ouvintes vão receber. Então, por que parar, se, definitivamente, eu gosto disso?

Talvez seja muito mais sobre como funciona isso em mim. Escrever é uma atividade particular, em que cada um tem uma maneira, um método, um ritual específico na hora de colocar as palavrinhas no papel. Para mim, e aí vai mais uma contradição, é um ato de profunda catarse. Eu preciso de isolamento, de me livrar dos outros pensamentos, de compor um rito, de desviar das coisas do cotidiano. Ao contrário do que se pensa, é, para mim, uma atividade egoísta, solitária e profundamente desgastante.

Até tentei modular meu comportamento na escrita de uma forma mais saudável. Meu texto ficou ruim para os meus padrões. Adquiri uma delicada relação entre aquilo que é o clichê do escritor (crise de criatividade, falta de inspiração, texto que não vem, acreditem, tudo isso acontece) e a desobrigação dessa função (sou um radialista, vivo do rádio e milito nesse meio). Em termos de forma, um conflito entre o jornalista, o escritor (pela primeira vez, me assumo dessa forma) e o pesquisador (que tem um texto completamente diferente). É como saltitar em pedras na água sem a segurança de que elas estão presas no fundo do lago. São texturas diferentes, gostos diferentes, direções contrárias. Admiro quem consiga ser tudo isso com talento e saúde. Não sei se tenho o talento, mas garanto que perdi um pouco da saúde com todas essas obrigações.

Portanto, fui vencido pelo excesso. Já escrevi aqui, as coisas se dissipam pelo excesso, não pela escassez. É muita coisa para fazer, muitos projetos para tocar, muita conciliação de tempo e disposição de pensamento para compartilhar. Mas não é só isso. Fui vencido pela ERA DO EXCESSO, em que TODOS se sentem obrigados a falar sobre TUDO. Ninguém deveria ter tanta exigência sobre as coisas e eu percebi isso quando, num mesmo dia, escrevi sobre cotidiano, debati sobre futebol, entrei numa live sobre música, estudei sobre imaginário, participei de um programa sobre ética e moral e, por fim, tuitei sobre tudo, da morte do Louro José às eleições norte-americanas. Terminei esse dia esgotado. Foi quando percebi que eu deveria retirar os excessos, em especial, aquele em que me faz exigir a perfeição em tudo que eu faço; foi quando percebi que felicidade e saúde são em reconhecer as próprias imperfeições. Foi quando eu percebi que é bom ser imperfeito e não ser tão bom assim em tudo para todos.

Essa é minha última coluna fixa no Coletiva.net. Agradeço à Márcia Christofoli e ao pessoal do portal pelo espaço de aproximadamente nove meses escrevendo aqui toda segunda-feira. Peço desculpas por algumas ausências e esquecimentos. Foi o excesso. Sigo colaborando com o site e tocando meus projetos. Eu não consigo ficar parado. E é, justamente por isso, que abri mão de algumas coisas que eu estava fazendo para que o movimento continuasse sem que ele desaparecesse. Não é sobre aquilo que falta; é sobre aquilo que excede. 

Autor

Carlos Guimarães

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