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Espelhos

“Desastres raramente são motivo de dissuasão do comportamento de pessoas ou nações. Embora apareçam no noticiário, de forma contínua e ubíqua, são percebidos como …

Lembro muito bem daquele dia em que comecei a envelhecer. Eu estava diante do espelho do banheiro, ainda sonolento da noite mal-dormida. Fico olhando para a imagem refletida, mas não reconheço o rosto no espelho embaçado. Me perguntei:

“Quem é o velho que me olha do espelho?.

O espelho é um objeto mais do que familiar, quase íntimo. Com ele convivemos diariamente, desde a primeira hora da manhã, na hora de chegar e quando estamos no trânsito. Mas se pensarmos melhor, veremos que os espelhos são cercados por mistérios. Ninguém sabe quem o inventou, onde e quando surgiu. Na antiga Sumária e no Egito se depositavam placas de metal polido nas tumbas de reis e faraós para refletir seus espíritos.

Desconhecido na Idade Média européia, foi graças ao gênio e refinamento dos venezianos que se transformou em um objeto universal de vaidade. Os antigos acreditavam que seus reflexos revelavam além da realidade aparente; magos e feiticeiros os usavam para antever o futuro e na tradição indo-budista era um instrumento para julgar almas dos mortos.

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Bastam dois espelhos para se obter uma breve visão do infinito. Um espelho reflete o reflexo do que o outro refletiu e vice-versa – um túnel no espaço que se perde “ad infinitum”. E quase somos tentados a enfiar a mão na fenda do tempo e tocar em seus reflexos. Assim como a bola de cristal dos videntes, o espelho sugere uma meditação sobre o vazio e o silêncio. Se é realmente mágico, o primeiro espelho da história deve ter enlouquecido aqueles que viram sua imagem refletida. Para os ciganos funciona como uma janela que se abre para a alma humana. Não há registro histórico de qual teria sido a reação dos incas, astecas e indígenas ao ver seus rostos refletidos nos espelhos presenteados por Pizarro e Cortez.

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Edgar Allan Poe recomendava ter cuidado ao ficar diante de um espelho em um quarto escuro. Escreveu que espelhos podem adquirir vida própria e refletir mais do que está diante dele. Eu passei por experiência semelhante, diante de um espelho, trincado e embaçado pelo tempo. Talvez tenha sido só um jogo de luzes ou ilusão de ótica, mas naquele espelho vi as águas inundando a cidade, suas casas e praças. E vi também o reflexo de mim mesmo, fugindo da enchente e com medo de se afogar. Desde então, evito espelhos em quartos escuros.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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