Colunas

Invernais

Por José Antônio Moraes de Oliveira

No coração de quem escreve é sempre inverno”.

Émile Zola.

Lembro que era fins de Outono e o Inverno estava quase chegando. Das janelas ainda embaçadas pelo frio da noite não se enxergava as ruas. Por um momento, me transporto aos tempos passados, quando o menino preferia ficar dentro de casa, lendo tudo o que caía nas mãos, em vez de brincar com os moleque da esquina. Meus pais devem ter imaginado que eu tinha talento para ser escritor e me deram de presente de aniversário uma caneta-tinteiro Parker 51.

***

Eu sempre gostei de escrever a lápis, depois aprendi a usar a caneta de ponta de aço que precisava molhar no tinteiro. Era o tempo dos ditados, quando o professor recitava trechos de livros em voz grave e pausada e a gente rabiscava em laudas de papel almaço.    

Mas o que se escrevia tinha pouco ou nada a ver com o ditado. Assim mesmo e para meu espanto ganho alguns “Muito Bom”. E ao final do ano, chego em casa com a Nota Dez na prova de redação. Sou recomensado com um beijo da mãe e a previsão da Tia Julieta, enrolada em seu xale de tricô, me fala ao ouvido:

“- Um dia, vais acordar escritor”.

Vem o tempo de ganhar a vida e o curso de datilografia manda para a gaveta as penas de aço e meus lápis Johann Faber nº 2. Fazendo companhia para a Parker 51 ao lado de um anacrônico vidro de tinta azul. Agora é a vez das Remington e Underwood  na redação do jornal, onde se escreve vigiado pelo grande relógio da parede. Não há mais tempo para pensar e refazer o que já está escrito. Correm os anos e foram pilhas de laudas de papel cobertas por centenas (milhares?) de palavras, parágrafos, vírgulas e reticências. Tudo descartável a cada 24 horas.

***

É mais uma vez Inverno, os vidros das janelas embaçadas pelo frio da noite e o nevoeiro esconde os altos pinheiros. Meu dia começa diante da página em branco do processador de texto. E apesar do cansaço de escrever, rescrever, revisar e editar, ainda ouço a velha tia:

“- É hoje que vais escrever algo verdadeiro?”.

*** 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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