Colunas

Seu nome é Suzana Flag

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Invejo a burrice, porque ela é eterna”.

 Nelson Rodrigues.

***

Quem tem mais de 50 primaveras e recorda dos tempos áureos do jornalismo, deve ainda lamentar a decadência do que hoje temos na telinha e no papel. Basta relembrar a diversidade e a vocação para a crítica construtiva dos jornais dos anos 60 e 70. Quando éramos brindados com editoriais autoriais e colunas assinadas por escritores de peso. Uma das inteligências mais irriquietas daquele jornalismo era Nelson Rodrigues. Era um gosto ler suas crônicas sobre a vida suburbana brasileira, que faziam mais sucesso do que as páginas de futebol.

***

Jornalista, teatrólogo e estudioso das emoções humanas, Nelson Rodrigues possuia uma impressionante capacidade de dramatizar o cotidiano e escancarar as tragédia humanas. Seus personagens eram marcados por ódio, vingança, ciúmes, inveja e remorsos.

Foi autor de 17 peças teatrais, consideradas como base da dramaturgia do teatro brasileiro moderno. Porém sua imensa popularidade é creditada à coluna A Vida como ela é, publicada na Ultima Hora e em O Globo. Irreverente e questionador, ele atropelava os tabus da classe média e do high society carioca.  Foi levado a usar de pseudônimos para escapar da censura oficial e das cartas raivosas dos leitores.

O sucesso começou com Meu destino é pecar, que assinava como Susana Flag. Foram 38 episódios em formato de folhetim que era publicado em meia página dos jornais e depois vertido para o cinema, teatro e radio. Pode-se afirmar que Meu destino é pecar serviu de matriz da atual telenovela, com situações e tipos humanos capazes de alimentar as fantasias do público e garantir audiência. Como já previa Nelson, quando disparava tiradas sarcásticas:

Os idiotas vão tomar conta do mundo;

não pela inteligência, mas pela quantidade.

Eles são muitos”.

ou

Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

ou ainda,

“Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.”

***

Nelson Rodrigues colecionava críticas, elogios e xingações. Ora o chamavam de gênio ora de obsceno demais para ser lido  em família. Seu biógrafo, Ruy Castro, o apelidou de Anjo Pornográfico, enquanto o político Carlos Lacerda o chamava de tarado. Mas para o poeta Manuel Bandeira, era o maior poeta dramático brasileiro.

Suas peças para o teatro foram censuradas, proibidas, boicotadas e igualmente aplaudidas de pé. Um caso famoso aconteceu com a reestréia de Senhora dos Afogados – que depois de proibida, voltou à cena dirigida por Bibi Ferreira. O escândalo aconteceu no Rio de Janeiro, onde Nelson Rodrigues era unanimidade.

Enquanto metade da platéia gritava:

nio, gênio!”

A outra metade xingava:

Tarado, tarado!”.

 Nelson Rodrigues morreu em um domingo de verão carioca, vitimado por problemas cardíacos. Sua biografia registra assim naquele dezembro de 1980:

 “Aos 68 anos, com uma carreira de sucesso

e pouco dinheiro, ele escreveu um último ato.

 Onde não faltou a ironia presente em toda sua vida. No dia de sua morte, o bolão

da Loteria Esportiva no qual participava com os

colegas do jornal fez 13 pontos”.

 

 ***

 

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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