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Florêncio

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Estrada afora, sombra do que foste,

vais repontando os restos de ti mesmo

nesta estranha estrada sem regresso (…)”.

 

Apparício Silva Rillo. 

Se bem me lembro, ele era parecido como um daqueles velhos profetas da Bíblia. Tinha o olhar de carancho, barba branca e estava sempre pronto para fazer aquilo que outros demoravam para fazer. Não gostava de ir à cidade nem de passear pela vila. O avô Patrício achava aquilo muito engraçado:

“- O Florêncio só se dá bem no meio dos bichos do campo”.

Quando terminava suas lides, o homem ia tomar mate na sombra de uma grande figueira, onde ficava esperando o sol descer no horizonte. De cara fechada, como quem está lidando com antigas tristezas. Depois, sumia na escuridão e só aparecia no dia seguinte.

Naqueles tempos, se usava a palavra vaqueano para quem vinha de tempos difíceis e tinham estórias de vida para contar. Não era bem o caso do Florencio – escondia as cicatrizes de balaços e não falava sobre seu passado. Mas dava prá saber que acreditava mais em armas que nos santos. E quando insistiam em saber de sua vida, devolvia:

“- O que você viveu ninguém rouba”.

Como guri de cidade, eu não acompanhava o que diziam e o que faziam aqueles homens sombrios que passavam pela fazenda, se encerravam nos galpões e sumiam antes do sol nascer. Curioso, eu me socorria com o avô Patrício, que – quando estava de boa veia – desfilava uma estória depois da outra. Sentado em um banquinho de três pernas, eu me aventurava pelos campos sem fim, fugindo de lanceiros farroupilhas e escondido dos ladrões de cavalos. Mas perdi muitas das estórias, que ficaram   pela metade, quando a mãe chamava para o banho de bacia e café-com-leite. No ano seguinte, que era bissexto, chega um inverno gelado, que bota de cama dois tios, uma tia e até meu avô, que se gabava de nunca cair doente.

***

De volta para a cidade, meus verões perderam a graça e aos poucos fui me esquecendo das estórias que o Coronel contava. Só ficaram umas lendas, a do Jarau e da Mula-Sem-Cabeça. Mas ainda guardo vestígos daqueles verões, como o relinchar dos cavalos de manhã cedo e o perfume de goiabas maduras da  horta debaixo da minha janela.

***

 

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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