Colunas

Faca de Ponta

Por José Antônio Moraes de Oliveira
 

Naqueles tempos da guerra, tempos de sombras e incertezas, nossos pais se perguntavam qual seria o futuro de seus filhos.

Em um certo dia, a mãe inventou de me levar até uma tia que lia o futuro nas cartas do Tarô. O pai não gostava de videntes, que dizia serem da mesma raça das ciganas que cobravam para ler La Buena Dicha. Mas a mãe insistiu e lá fomos nós passear de bonde Teresópolis. 

***

A Tia Julieta nos recebe com meio sorriso, serve um chá de gosto amarguento e passa a mão na minha cabeça. Nos acomodamos ao redor de uma mesinha coberta com pano roxo e com uma bola de cristal ao lado. Ela embaralha as cartas e as distribui na mesa em silêncio. Me remexo na cadeira, inquieto e um tanto medroso. Olho para a mãe, que me parece mais pálida do que costume. Depois de trocar e retrocar as cartas, a tia rabisca algo em um pedaço de papel, que dobra em oito e entrega para a mãe. Ao chegar em casa, ela tira da bolsa o bilhete da vidente, lê e relê o que está escrito, me olha, sorrindo sem graça. Enfia o papelucho no bolso do avental e vai cuidar do nosso café-da-tarde.          

Mais tarde, pergunto e repergunto, mas ela não me conta nada. Apenas recomenda:

“- Tenha cuidado com facas de ponta”.

Na hora, não dei a mínima importância, mas mais tarde, lembrei do aviso da tia, quando corto a mão com meu canivete suiço que esquecera aberto no bolso. E para completar a dita profecia, no dia seguinte, uma faca de açougueiro escapa de minha mão e cai de ponta no chão, perto do meu pé. Quando conto para a mãe, ela solta um suspiro e diz que o que as previsões da Tia Julieta deviam ser levadas a sério, pois costumam acontecer.

Então revela um episódio antigo que a família não gostava de lembrar. Que a mesma Tia Julieta um dia alertou a família para evitar o número 2, mas que ninguém levou muito a sério, que devia ser uma fantasia ou estória para assustar crianças. Mas um dia, perto do Natal, correu a notícia que um bonde da linha Independência saíra fora dos trilhos na curva da Rua Pinto Bandeira e despencou ladeira abaixo, matando o motorneiro e ferindo vários passageiros.

***

No dia seguinte, nosso espanto ficou ainda maior, quando o pai nos mostra a primeira página do Diário de Notícias com a foto do bonde tombado na esquina da Avenida Otávio Rocha. Era o bonde de número 2. 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.