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O Sétimo Vento

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Eram muitas e sem-conta as estórias e causos que meus tios contavam ao redor do fogo nos campos do Coronel Patrício. E até ganhavam versões adocicadas que eram repassadas para  a criançada na hora de dormir. Mas ficavam meio sem graça e sem sustos – as meninas até que gostavam – mas os guris preferiam as de gente grande, que ouvíamos pelas frestas do galpão. O que nunca entendi era quem inventava estórias que não estavam nos livros e que eram transmitidas de pai para filho.

***

Anos depois, me aconteceu conhecer um professor com o apelido de Professor Coruja. O homem tinha um passatempo muito do peculiar – colecionava lendas e estórias antigas para um livro que pretendia publicar um dia. Mas já tinha pensado o título::  

“Era Uma Vez…” 

Quando falei que existiam dezenas de livros com o mesmo título, ele pareceu desapontado. Mas se recuperou e foi buscar uma caixa onde guardava os causos e contos populares garimpados nos morros e no pampa. Era um tesouro da cultura popular, com narrativas que nunca haviam sido publicadas e que já estavam sendo esquecidas. Me indagou se eu conhecia os causos de meu tempo de guri no Passo Grande.  Disse que talvez, mas quando ele ligou o gravador, contei do caso da Torre dos Sete Ventos:

***

“Ela ainda está em pé. É uma torre em ruínas, que fica entre a Lagoa dos Patos e a Lagoa do Rincão, no final da trilha que vai de Mostardas até Tavares. Dizem que é o que restou de um farol da época da Revolução Farroupilha, que foi alvejado por tiros de canhão de uma fragata imperial. Uma versão recente conta que era uma fábrica de tecidos, inundada na enchente de 1941.       No entanto, para os velhos pescadores da Lagoa dos Peixes, a estória é outra, bem mais assustadora. Falam, para quem quiser ouvir, que nas noites de Inverno, quando sopram os ventos pelo descampado entre as lagoas, se ouve um lamento que vem das ruínas da torre. 

E contam mais – que o uivo muda, dependendo do vento que vem do Sul. E contam nos dedos os tais ventos: 

Bóreas… Minuano… o Pampeiro,… o Nordestão, o Vento Sul 

e o mais brabo de todos, o Maral que chega quente do oceano. 

Quando termino minha estória, o Professor Coruja faz cara de desentendido, vai ouvir a gravação e anotar o nome dos ventos. Conta seis, reconta e reclama que falta um que justifique o nome de Torre dos Sete Ventos.  Tento, mas a memória não ajuda e até hoje não sei qual é o Sétimo Vento.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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