Colunas

Cor-de-Fogo

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Por que não voltas, mulher que passa?

Por que não voltas, mulher querida

Sempre perdida, nunca encontrada?”. 

Vinicius de Moraes.

***

Eu era menino e nem imaginava que existiam cabelos como aqueles. Me aconteceu meio de repente – dobrava a esquina e me deparo com uma cascata de cabelos cor-de-fogo que ondulavam ao vento. Parecia que sonhava de olhos abertos; a moça passou rente a mim e desapareceu nos altos da Ramiro Barcellos. E lá fiquei, parado no meio da rua, apalermado e sem saber o que pensar.

 ***

Meses se passam antes de acontecer de novo. Perambulava distraído pelo bairro, quando ela, a Cabelos-de-Fogo, atravessa meu caminho. Era o mês de Novembro e a Praça Júlio de Castilhos estava atapetada com a florada azul dos jacarandás. A moça caminhava de queixo erguido com os cabelos ruivos ondulando a cada passo. Do outro lado da rua, os guris interrompem o jogo de bola para ver a moça passar.

Nem se ouviram os fiu-fiu de sempre ou sequer as costumeiras piadinhas. E ela seguia, ignorando tudo e todos. Toca a sineta de um casarão na avenida e some de vista. Como quem não quer nada, vou até a esquina, dou uma volta ao quarteirão, fazendo de conta que procuro por um endereço. E de olho no casarão, com vaga esperança que a ruiva se mostrasse nas janelas ou na sacada. Até pensei ter visto um rosto entre as cortinas de uma janela, mas era apenas uma ilusão. Me dou conta do ridículo do que estou fazendo parado na esquina e volto para casa.

O tempo passou e tentava esquecer da misteriosa dona dos cabelos-cor-de-fogo – quando passava diante do casarão me censurava:

“Bobagem de adolescente… estavas fantasiando…

aquilo foi só uma miragem…”.

 ***

Mas foi então, quando menos esperava, aconteceu de novo e desta vez foi um susto. Certo dia, sou convidado para a festa de aniversário de um amigo no ginásio, que me passava cola nas provas de Química. O sobrado na André Puente estava bem animado, irradiando alegria. E, como era de costume na época, rapaziada e moças ficavam em salões separados, se trocando olhares de longe. Mal cheguei, meu amigo me chama para conhecer sua família. A surpresa é tão grande que mal consigo dizer alguma coisa:

“Muito Prazer…Encantado…

uma honra, etc e tal…”.

A família me cumprimenta com cordialidade e simpatia. Estou diante de três pessoas: um senhor de óculos, vestido com aprumo (depois soube que era desembargador), uma senhora grisalha muito distinta e entre eles…a Cabelos-de-Fogo que sorri divertida com meu embaraço.

 *** 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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