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Cadê você, Rua da Praia?

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Havia um tempo de cadeiras na calçada.

Em que crianças brincavam sob a clarabóia da lua.

E o cachorro da casa era um grande personagem”.

Mario Quintana.

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Quando completei 18 anos, ganhei alvará para chegar mais tarde em casa. Mas era tarde demais e a Rua da Praia já não era mais  a mesma de outros tempos. Havia perdido seu ar provinciano, quase inocente, de simples e inocentes prazeres. O footing da tardinha havia perdido seu grande encanto – o flerte com as meninas que passeavam de braços dados, esperando nossos galanteios. E as elegantes confeitarias que fizeram a alegria de nossos pais, eram apenas uma sombra do que foram. Mas ficaram a lembrança das empadinhas de camarão da Pelotense e das bombas de chocolate na Schram. 

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Mas aos poucos, a rapaziada foi descobrindo aqui e ali os novos prazeres, sem as doçuras de antes, mas com gosto de novidade. Seguindo as pegadas dos mais velhos, fizemos fila diante do Cine Central para assistir filmes mexicanos Impróprios até 18 anos. E depois de Maria Antonieta Pons, chegava a hora de matar a fome com o bauru do Matheus. Ou, como os jornalistas e boêmios de plantão, descíamos até o o Treviso para a tradicional canja de galinha. 

Com o tempo, os novos encantos do Centro Histórico também se esgotaram. Chegaram os batedores de carteira e as cortadoras de bolsa, que deram um fim ao desfile de damas elegantes e garotas de braço dado. Na sequência, as joalherias e lojas de moda, se mudaram para os bairros, dando lugar a vendedores ambulantes e seus produtos fakes vindos do Paraguai. E veio a vez dos seis ou sete cinemas da Cinelândia que fecharam as portas, por falta de público. Mas ficaram na memória alguns ícones das noitadas da Rua da Praia – o relógio da Casa Masson, que avisava que era hora de pegar o último bonde no abrigo da Praça Quinze. E a indispensável banca de jornais da Praça da Alfândega, que exibia as capas das revistas nacionais e jornais do diários do Rio de Janeiro em São Paulo. E onde, à meia-noite sem falta chegavam grandes maços com o Jornal do Dia, Diario de Notícias e Correio do Povo com as manchetes do que seria notícia no dia seguinte. 

***

Encontro um veterano companheiro das andanças daquele tempo. Ele me conta que foram instaladas esculturas em bronze dos poetas Drummond e Quintana conversando animadamente junto a um banco da Praça da Alfândega. Com um indisfarçado suspiro de resignação, diz que preferia quando o poeta estava sentado  no mesmo banco, fumando e jogando fora versos vadios.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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