Tesyeuxsont si profonds que j’yperdslamémoire (Louis Aragon)
A ficção é invenção da memória
Eu já havia completado 73 anos quando a minha filha Rachel deu-me o livro Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino Freire para a Editora Ateliê.
Explica Marcelino: “o mais famoso microconto do mundo (Quando acordou o dinossauro ainda estava lá. De Augusto Monterroso) tem só 37 letrinhas”.
Inspirado nesse verdadeiro desafio literário – nada além de 50 dígitos, fora o título – comecei a brincar.
Alguns estão aqui.
Remorso Ao despedir-se percebeu que o lenço não era branco.
Adeus O lenço preto avisava que não havia outra vez.
Estação Aquela triste despedida onde nem o lenço foi.
Enfim sós Abaixou as calças e sentiu a pica da injeção na bunda.
Enfim livre Jogou a gravata na privada e puxou a descarga.
Logo comigo O agente funerário criticou o serviço feito pelos colegas.
Não deu Faltou espaço para escrever um conto. Espremeu um adeus.
Extrema-unção Foi atropelado assim que o amigo despediu-se: vá com Deus.
Integridade Quando quis passar a vida a limpo, a vida não aceitou.
Farsa A amante ficou furiosa ao saber que ele também era casado.
Comédia Riu muito quando furtaram o celular que havia furtado.
Drama Quando o carro bateu no poste lembrou-se do seguro vencido.
Tragédia Tinha tanto medo de morrer que se matou.
O general Achou o caixão desconfortável, mas perdera a autoridade.
Sem saída Juntou as últimas moedas para comprar o chapéu do mendigo.
Baile gay Chegou chorando, queimou a fantasia e a foto dele.
Dos micros experimentei um mini.
Resignação
Ao levantar-se rasgou a calça no joelho esquerdo. Sentou-se e com paciência começou a fazer bainha no buraco.

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