Em setembro de 1958, em Porto Alegre, Milton Flores da Cunha Mattos, Mario Coelho Pinto de Almeida, Paulo César Campos Velho (Peréio) e Paulo José Gomez de Souza fundaram o Teatro de Equipe.
Se na trajetória do Equipe houvesse a escolha de um episódio que melhor ilustrasse sua criatividade, a riqueza de seus recursos humanos e o espírito desprendido de todos seus participantes e colaboradores, a solução das poltronas seria a síntese, o episódio exemplar. Quase ao final das obras, Milton e Mario, com o fluxograma financeiro nas mãos, concluíram que seria impossível levantar a tempo recursos para comprar as 116 poltronas – caríssimas – e inaugurar o teatro na data desejada. Subindo a ladeira da Rua da Praia, em direção à Praça Dom Feliciano, Mario encontrou uma resposta ao problema.
Vou transcrever aqui capítulo do livro Trem de Volta – Teatro de Equipe, parceria minha com o escritor e jornalista gaúcho Rafael Guimaraens, lançado pela Editora Libretos, em 2003, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.
O mutirão
No início do século XX, a fina flor artístico-intelectual-boêmia do Rio reunia-se na Confeitaria Colombo. Na época, o trocadilho era uma manifestação de espírito de Emílio de Meneses, um de seus mais brilhantes cultores. Certa vez, numa roda social, uma linda senhora, com vestido bastante decotado, perguntou:
Sr. Emílio, sabe qual é o principal atrativo feminino?
Sei-o, disse Emílio com os olhos voltados para o atrativo.
Jamais imaginei que os porta-atrativos, os sutiãs, pudessem servir como solução para equipar o Teatro de Equipe com suas 116 poltronas. De todas as histórias que cercam, não só a construção, mas toda a trajetória do Equipe, nenhuma se aproxima, pelo inusitado, pela criatividade e pelo esforço coletivo, desta que começa numa vitrine com roupas íntimas femininas.
Eu subia a Rua da Praia, em direção à Praça Dom Feliciano, pela calçada do lado esquerdo, quando, mal passara a Rua Dr. Flores, vi minha atenção desviada para uma vitrine onde, entre outros artigos, um sutiã com um reforço circular de vulca-espuma propunha realçar o atrativo natural. Minha cabeça, imediata e prosaicamente, desceu dos seios para as bundas. Acendeu-se na minha mente uma lâmpada de muitas possibilidades… Entrei na loja e perguntei a uma vendedora quem fabricava aqueles sutiãs. A sorte estava, literalmente, do nosso lado – a confecção era na Dr. Flores, a poucos passos da loja. Para lá fui, toquei a campainha, uma cordinha abriu-me a porta, uma senhora, lá em cima da escada, perguntou?
Quem é?
A senhora não me conhece, sou Mario de Almeida.
Do Teatro de Equipe?
Sim.
Então, suba.
Subi.
Que deseja?
O que a senhora faz com a sobra de vulca-espuma dos sutiãs?
Jogo fora.
Pode jogar pra mim? Talvez resulte em poltronas.
Essa maravilhosa empresária judia assistia a todos os nossos espetáculos, falou de Godot e Rondó e nos prometeu ceder, é claro, a vulca-espuma. Entre voando e flutuando, cheguei para o companheiro Milton e disse mais ou menos isso – “Milton, aquelas cadeiras da moda (anos 50), de ferros trançados, podem ter os assentos e encostos forrados de vulca-espuma e revestidos de tecido. Fixadas nas vigas de madeira, dispensam os pés”. Milton nem piscou, captou de cara o tamanho da proposta e, caneta na mão, começou a rabiscar. Desenho pronto, solução hipermoderna naquele ano 60 e a sorte continuava ao nosso lado – vizinha ao edifício onde moravam Paulo José e Orlando Carlos, na Barros Cassal, funcionava uma funilaria. Negócio fechado dentro daqueles princípios da “boa vizinhança” e, enquanto eram feitas as cadeiras, foi dado início ao maior mutirão, com as seguintes etapas:
- Cortar 232 moldes de papelão que serviram, como pães de sanduíche, para receber o recheio dos assentos, no caso, a vulca-espuma.
- Forrar em algodão puro os papelões recheados.
- Forrar no tecido escolhido – creme-claro – os assentos e costurá-los nas poltronas.
- Idem, idem, com os 232 moldes dos encostos.
Durantes semanas, quem chegasse nas mais diversas horas, no Equipe quase concluído, iria encontrar as moças do elenco e algumas nossas amigas cumprindo essas tarefas. Uma das mais dedicadas era Jenny Job que, me disseram, descansa em nuvens de vulca-espuma estofadas por doces arcanjos. Uma noite, entrando no tradicional restaurante da classe teatral de São Paulo – Gigetto – sou surpreendido por Cacilda Becker, então a prima dona do teatro brasileiro que, vindo em minha direção, tascou-me dois beijos nas faces:
Mario, estava te devendo esses beijos.
Por quê?
Vi lá em Porto Alegre as moças do Equipe costurando as poltronas! Teatro é isso!
Fosse eu um oportunista e perguntaria à Cacilda se, por acaso, ela não vira também o Orlando Carlos enrolando metros e metros de fios de níquel-cromo para fazer o nosso equipamento de luzes em resistência. Eu ganharia, no mínimo, mais dois beijos.
Inté.
(Trecho do livro Trem de Volta – Teatro de Equipe)

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