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Quebrei a cara

Lá pelos anos de 1950, a Praça XV, no Rio, tinha um movimento inusitado que começava tarde da noite e avançava pela madrugada. O …

Lá pelos anos de 1950, a Praça XV, no Rio, tinha um movimento inusitado que começava tarde da noite e avançava pela madrugada. O motivo era trivial, mas a quantidade de pedestres e automóveis vindos de outros bairros, não.

Uma barraca de angu à baiana, no meio da praça do antigo Paço Imperial, além de próspera, fez a fortuna de um “pé-sujo” próximo que, identificando a oportunidade, deixou de fechar a porta à noite e, além de aperitivos, vendia muita – muita mesmo – cerveja.

A barraca do “Angu do Gomes” inseriu-se no rol dos negócios bem-sucedidos e, transformada em rede, multiplicou-se em bairros do Rio.

Na Rua da Praia, mesma época, defronte à Praça da Alfândega, em Porto Alegre, um sucesso gastronômico noite e dia era a “Nova Confeitaria Matheus” e – acredito – por ela circulou João Gilberto, durante os meses em que se hospedou no Hotel Majestic, o mesmo que me acolheu anos depois e o grande poeta gaúcho que deu destino definitivo ao imóvel: Casa de Cultura Mário Quintana.

O bauru da Matheus tinha a propriedade de me mandar de volta para São Paulo, Largo do Paissandu, “Ponto Chic”, onde em 1928 nasceu o sanduíche famoso no Brasil inteiro. O “Angu do Gomes” acabou, o “Ponto Chic” permanece no mesmo largo onde se instalou em 1922 e abriu filiais nos bairros Paraíso e Perdizes.

A Matheus hoje é o Café e Confeitaria Matheus, na Avenida Borges de Medeiros, bem pertinho da Rua da Praia.

Vamos agora ao profeta que não profetizou ou astrólogo mal-sucedido.

Assim como Luis Fernando Verissimo faria tempos depois na “Zero Hora”, quando o responsável pelo horóscopo da “Última Hora” entrava em férias, eu, chefe de reportagem, não deixava ninguém “inventar”. Tirava minha bola de cristal da gaveta e profetizava o dia dos leitores todos.

Na mesma época, na “UH” do Rio, o titular da coluna era um comunista de carteirinha, e suas previsões eram sempre uma ordem do dia: “Ótimo para reivindicações salariais”, “Lembre-se que só a união faz a força”, “Cuidado com os puxa-sacos dos patrões”, um verdadeiro manual de mobilização anti-patronal.

Nunca fui puxa-saco, mas não endossava o companheiro e tentava induzir os leitores para os espaços mais doces da vida. Uma ajudazinha de leve nos ânimos mais caidinhos.

Na “UH”, havia uma seção que seria a delícia do Verissimo. Fim de noite, o editor de Polícia escolhia uma matéria sem importância, mas com potencial de graça, e a entregava a um determinado redator que a transformava numa crônica de humor. Essa era a outra seção que, na ausência do redator, eu não deixava ninguém pôr a mão. Era minha desopilação ao final da jornada de trabalho.

José Matheus, que era filho do patriarca fundador da Confeitaria (creio), além de dirigir a mesma, era o presidente do sindicato da classe dos panificadores. Mantínhamos uma relação cordial, cada um conhecendo a atividade profissional do outro.  

Uma tarde, no período de férias do redator policial, Matheus entrou na redação com um exemplar do jornal, dirigiu-se à minha mesa e indagou:

– Mario, quem foi o fdp que escreveu isso?

Um filme rapidíssimo passou pela minha cabeça e exclamei:

– Acho que fui eu.

Síntese: Matheus tinha uma pequena propriedade próxima a Porto Alegre onde criava gado de raça. Naquela época remota, alguns gatos pingados ensaiavam um movimento dos “sem-terra”. Pois uma turminha deles, duas noites antes, invadiu a propriedade, matou, carneou e churrasqueou uma cabeça da criação.

Sem trocadilho: não era um prato feito para aquela coluna?

Pois foi aí que este falso astrólogo e profeta do horóscopo quebrou a cara. A cabeça carneada era de um touro, um reprodutor arrematado em leilão por uma nota grande e, por puro acaso, foi o imolado naquela noite da festa dos excluídos. 

Não cabia mais que um sofrido pedido de desculpas, um cafezinho e o episódio acabou de maneira civilizada.

No fim daquele mesmo ano, dirigentes gaúchos da SUPRA – Superintendência da Reforma Agrária –, organismo federal extinto, pediram-me que eu bolasse o cartão de Boas Festas da instituição. Agradeceram e me deram de presente um facão e respectiva bainha de prata, um talher nobre para churrasco.

Fiquei imaginando se a escolha daquele presente não seria um sutil gesto de solidariedade por eu haver escrito aquela crônica.

O que você acha?

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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