A diferença entre uma vaca ruminando
e um americano mascando chiclete
é o olhar inteligente da vaca.
(Bernard Shaw)
– Vaca Sagrada?
– Sim…
– Paschoal Car…
– E precisa dizer?
– Escuta… fui convidado para presidir o júri de um concurso de piano em Bagé…
– Venha, quando? Reserve uns dias para ficar conosco…
– Não… deixe explicar… Eu só aceitarei se você puder ir comigo, fazer companhia…
Esse papo, aparentemente surrealista, era um interurbano do Rio para Porto Alegre, de Paschoal Carlos Magno. A Vaca Sagrada era este colunista mesmo. Longe de mim, filho e neto de dentista, aceitar ser um ruminante com goma de mascar na boca. Paschoal, apesar de algumas investidas minhas, jamais justificou o motivo de tão esdrúxulo apelido ou coisa parecida, mas de uso permanente. Minha vingança foi doce, jamais disse a ele que aquele convite havia chegado na hora certa, pois eu estava tentando receber os favores de uma dama da sociedade daquela cidade, mas não poderia ir lá, ou melhor, só poderia ir como o personagem de Tchecov no conto “Olhos Negros”, com um pretexto publicamente conhecido. Fui. Esses dois dias em Bagé, além de hipergratificantes, foram totalmente creditados por Paschoal à imensa amizade que eu tinha por ele, essa sim, uma amizade sagrada.
Os brasileiros comemoram este ano o centenário de nascimento dos gaúchos Mario Quintana e Radamés Gnatalli e do carioca Paschoal Carlos Magno. Se é fácil sintetizar Quintana como poeta, escritor e tradutor e Radamés como o homem dos sete instrumentos – vocação total para a música erudita e popular –, já Paschoal exige uma síntese nada sintética.
Poeta, romancista, dramaturgo com obras premiadas, crítico teatral, diplomata de carreira, vereador pelo Distrito Federal, chefe de gabinete no Governo de Juscelino Kubistschek, duas vertentes maiores fundem-se nessa extraordinária figura de agitador cultural e de homem público: Teatro e Estudantes.
Em 1938, criou o Teatro do Estudante do Brasil e, em 1945, o Teatro Duse – no porão de sua residência -, e a Casa do Estudante do Brasil, edifício no centro do então Distrito Federal.
Organizou, em 1944, o Curso de Férias de Teatro, e dele surgiu o Teatro Experimental do Negro, criado e dirigido por Abdias do Nascimento, de onde despontaram Ruth de Souza e o “Orfeu da Conceição”, Haroldo Costa. Essa histórica encenação, em 1956, do texto de Vinicius de Moraes inaugurou a dobradinha do poetinha com Tom Jobim e dele participou o cantor Cyro Monteiro e até o campeão de salto triplo, Ademar Ferreira da Silva.
Em Paty de Alferes, no Estado do Rio, em 1965, Paschoal deu vida a uma antiga fazenda de café e criou a Aldeia Arcozelo, espaço cultural, hoje sob os cuidados da FUNARTE, onde se realiza, anualmente, entre muitos outros eventos, o Festival de Teatro Amador fluminense.
No Teatro do Estudante e no Duse revelaram-se grandes artistas: Consuelo Leandro, Glauce Rocha, Maria Pompeu, Teresa Rachel, Agildo Ribeiro, Augusto César Vanucci, Aurimar Rocha, Moacyr Deriquem e Othon Bastos. A montagem de “Hamlet”, pelo TEB, em 1948, revelou Sérgio Cardoso, no papel-título, e Maria Fernanda, como Ofélia, contracenando com Cacilda Becker e o estudante de Medicina Sérgio Brito!
No Duse, hoje incorporado à Fundação Nacional de Artes Cênicas, encenou textos inéditos dos brasileiros Rachel de Queiroz, Antonio Calado, Francisco Pereira da Silva e Hermilo Borba Filho.
Com o Teatro do Estudante do Brasil realizou viagens pelo Brasil e prosseguiu sua agitação, comandando sete versões do Festival Nacional de Teatro de Estudantes e, ainda, a Caravana da Cultura, a Barca da Cultura e o Trem da Cultura, projetos itinerantes de circulação de artes cênicas.
Quando Milton Mattos, Paulo José, Peréio e eu fundamos, em Porto Alegre, em 1958, o Teatro de Equipe, Luiz Carlos Maciel dirigiu “Esperando Godot” e Paulo José dividiu comigo a direção de “Rondó 58”, encenação de poemas brasileiros. Ano seguinte, com total apoio de Paschoal, hospedagem incluída, apresentamos, com sucesso de público e crítica, aqueles espetáculos numa temporada de duas semanas num teatro de Botafogo. Na volta para Porto Alegre começamos a construção da nossa casa de espetáculos na Rua General Vitorino. Paschoal sugeriu-nos a venda de cadeiras cativas. Sugeriu e, vendas iniciadas, pegou um avião e passou dois dias conosco, escrevendo bilhetinhos para seus amigos gaúchos, pedindo adesão ao projeto. Essa entrega pessoal, mais a campanha da jornalista Célia Ribeiro, através de sua coluna em “A Hora” e o trabalho das atrizes, atores e amigos resultaram em duas lotações de cadeiras cativas! A cadeira A1, da primeira lotação, era do Paschoal.
Esse Carlos Magno era uma usina de criação e um batalhador incansável na realização de suas idéias. Crítico teatral do “Correio da Manhã”, aproveitava-se dessa condição para relaxar e dar umas cochiladas durante os espetáculos.
Em 16 de janeiro de 1976, ao completar 70 anos, ganhou de presente uma crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil:
Por sua vida curtida e generosa, hoje devia ser feriado nacional.
No início de 1980, sabendo que Paschoal não estava bem de saúde, fui visitá-lo e verifiquei como o tempo pode transformar uma usina de energia numa fábrica de resmungos.
Em 24 de maio de 1980, aos 74 anos, despediu-se do mundo e de um país que poucos, como ele, agitaram e engrandeceram.
Acho que naquela despedida esta Vaca virou profana.
Inté.
(Esta coluna foi originalmente publicada em 13/02/2006)

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