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No ano de 1991 comecei a escrever o livro Antonio’s, caleidoscópio de um bar, e pedi a alguns amigos – Antonio Torres, Cristina Gurjão, …

No ano de 1991 comecei a escrever o livro Antonio’s, caleidoscópio de um bar, e pedi a alguns amigos – Antonio Torres, Cristina Gurjão, Fausto Wolff e Leopoldo Câmara – que colaborassem com um texto sobre o bar e restaurante.

Todos os quatro eram frequentadores assíduos do espaço e tinham coisas a contar, como contaram, mas meu pedido ao Torres tinha um alvo especial. Ele já me contara que Irineu Garcia, nosso amigo comum já falecido, o tinha levado pela primeira vez ao Antonio’s.

Eu disse ao Torres: “Em Chega de saudade, o Ruy Castro fez um retrato pequeno do Irineu. Precisamos mostrar o Irineu no seu tamanho original. Aliás – disse –, a gente precisa registrar tudo para que não se repita o que aconteceu com… aquele que foi amigo de uma geração toda, mas de quem se sabe muito pouco… (branco total no nome do personagem)… como era o nome dele? O personagem em questão era o Jayme Ovalle, cuja vida e obra foram totalmente desvendadas, em 2008, por Humberto Werneck no livro Santo Sujo.

Quanto a Irineu Garcia, paulista da cidade de Mococa, jornalista radicado no Rio e depois autoexilado da ditadura em Lisboa, foi o criador do selo Festa, fértil produtora de discos de interesse artístico, ausentes do mercado comercial, com gravações de poetas dizendo seus versos, como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e – incrível – Pablo Neruda também por ele mesmo. Na voz principal de Paulo Autran com música de Tom Jobim, Irineu produziu O Pequeno Príncipe, de Saint Exupery.

No repertório de Festa, além de preciosidades no universo da música erudita, existe um marco histórico. Quando morreu, em 1984, Irineu levou para o túmulo dois feitos em um só: gravou Canção do amor demais, LP de Elizete Cardoso, com músicas de Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes e participação parcial de João Gilberto e sua consagradora batida de violão. Bossa Nova, Elizete e João Gilberto ganharam, na mesma tacada, vagas na eternidade, assim como o próprio Irineu.

Em conversa pessoal, Irineu me contou que fora ele quem trouxera para o Brasil o livro original, em espanhol, de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez, e o entregara para seus amigos Fernando Sabino e Rubem Braga, que o editaram pela Editora do Autor e comemoraram o seu sucesso.

No dia 6 deste mês de novembro de 2013, mandei um e-mail curto e grosso para o meu velho amigo Antonio Torres: Merde!     

Para quem não é do ramo teatral, decifro o sentido desse “merde”. Usa-se a palavra em francês mesmo, pois foi em Paris que um ator, nervoso em noite de estreia, pisou em merda antes de entrar no teatro e foi muito bem-sucedido. No caso, “merde” passou a ser voto de “sucesso”.

Era a véspera da eleição para a cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras, e meu amigo Antonio Torres era candidadto à imortalidade, realmente conquistada com 34 votos dos 39 possíveis.

Escrevi que o escritor e eu somos velhos amigos e, de fato, em 1972, quando ele lançou seu primeiro livro, Um cão uivando para a lua, Aurea e eu estávamos na fila para ganhar sua dedicatória. Hoje, 17 obras publicadas, esse cidadão, nascido no interior da Bahia que migrou para São Paulo, correu mundo e se instalou aqui no Rio, foi traduzido nos EUA, Argentina, França, Espanha, Alemanha, Itália, Inglaterra, Cuba, Israel e outros países, acumulou leitores e ganhou prêmios, entre os quais  Romance do Ano – 1996, concedido pelo Pen Clube do Brasil; Prêmio Hors Concours – 1998, União Brasileira dos Escritores; Chevalier des Arts et des Lettres – 1998, condecoração do governo francês; Prêmio Machado de Assis, 2000, da Academia Brasileira de Letras; Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura – 2001.

Nossa amizade é tão antiga que, não fosse eu mais velho, mentiria que nos conhecemos na maternidade, outra mentira, pois eu nasci em casa pelas mãos da parteira Ema, coisa que ninguém precisava saber.

Confissão: Estou tão velho que até o ontem já aparece todo enrugado.

Inté.

 

Este texto foi originalmente publicado em 18/11/2013

Autor

Mario de Almeida

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