Este paulista, em 1964, depois de sete anos de domicílio gaúcho, teve que fugir para São Paulo no golpe militar e quase um ano depois, veio, pela terceira e última vez, morar no Rio de Janeiro, então de há muito uma cidade quente e absolutamente sádica nos picos de calor espalhados pelo verão afora.
Cidade quente, mas livre dos engarrafamentos sistemáticos e que permitia um bom trânsito no item locomoção.
De resto, o Rio era um polo da inteligência nacional e possuía, também, uma vida pulsante nas artes e na música popular.
A bossa nova já ultrapassara as fronteiras e tinha significativa audiência internacional.
A inteligência tinha seus territórios onde era possível desabafar os agravos às liberdades perpetrados naqueles primeiros anos que antecederam o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5.
Castello Branco, o primeiro dos ditadores militares, fizera um discurso de posse otimista, e futuras liberdades plenas foram asseguradas. Nenhuma delas cumprida até o término de seu mandato e nem nos quase vinte anos depois.
Apesar de tudo, a vida no Rio era vivível, com muitos pontos positivos, e a “cidade maravilhosa” inda não se dobrara à gula da construção civil, e sua política urbana era sintetizada por um enclave no Leblon batizado como “Selva de Pedra”.
Morador sucessivo de quatro endereços em Copacabana, todos próximos do mar, a praia era programa constante de manhã bem cedo ou nos fins de semana.
A vida transcorria normalmente e, de repente, o final de 16 anos de companheirismo vividos juntos foi negociado num almoço de um bom restaurante onde a comida estava péssima.
Depois, de namorada nova e indo para a Globo implantar a própria agência de propaganda da “Venus Platinada”, Aurea, a já então companheira, em outubro de 1978, tornou-nos pais da Rachel.
Aurea, trabalhando na IBM na Presidente Vargas, e eu, na Globo do Jardim Botânico, descobrimos logo que Copacabana não era um bom lugar para se criar uma criança que passava os dias úteis com uma babá e uma empregada.
Por acaso, Leopoldo Câmara, amigo e colega de profissão, descobrira o Condomínio Novo Leblon e para lá se mudara, pouco depois da entrega das chaves.
Num sábado de julho, visitamos Leopoldo e ele nos mostrou seus domínios: em 600 mil metros quadrados, um campo de futebol society, quadras de tênis, vôlei, basquete, futsal, piscinas, sinuca, playground e um clube com bar, restaurante, salão de festas, salão de beleza, sala e aulas de ginástica, secretaria e administração. Além de serviço de ônibus para Ipanema e Centro do Rio.
Entre o Condomínio e a praia da Barra da Tijuca, o Canal de Marapendi, cuja travessia era e é feita por balsas.
No dia seguinte, domingo, voltamos ao Novo Leblon e compramos nosso apartamento num dos sete edifícios já construídos, faltando apenas um para conclusão do projeto.
No dia 31 de agosto de 1979, Rachel com 10 meses, Carla, uma sementinha na barriga da mãe, Aurea e eu desembarcamos no Novo Leblon, km 7,5 da Avenida das Américas, então ainda um sítio ermo na Barra da Tijuca, a 20 minutos da Marquês de São Vicente, na Gávea.
Mas essa é outra história que pode até continuar, como a vida que continuou.
Inté.
* Este texto foi originalmente publicado em 07/01/2013.

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