O terrível instante
Antes de escrever, eu olho, assustado, para a página branca de susto.
(Mário Quintana)
A bala
Consta na memória familiar que eu tinha pouco mais de um ano quando, no porão de nossa casa, em Campinas, achei uma bala de fuzil. A evidência apontava que aquela bala era resultado de algum confronto na Revolução Constitucionalista de 1932, quando Campinas foi cenário de ocupação das tropas governistas vindas de Goiás e Matogrosso.
Felizmente, aquela bala perdida não me achou…
Bièrre
Entrei no bar, numa manhã parisiense, e pedi um café e um pão com manteiga. Quando vi a atendente apanhando uma garrafa de cerveja acabei de acordar. Eu havia pedido bièrre (cerveja) em vez de beurre(manteiga).
L’argent
Não sei se ainda é assim, mas um turista não podia sair da França com mais de 5.000 dólares. Caso fosse apanhado com mais do que isso, seria multado em 25% da diferença. Lembrei-me do fato a poucos minutos de desembarcar em Paris e que eu carregava mais que isso na sunga, pois ainda não havia os cartões que você saca, em centenas de países, na moeda local, dinheiro de sua conta no Brasil. O mais prático e seguro, de acordo com punguistas, era carregar o dinheiro na sunga, um espaço intocável. Aurea e eu iríamos passar dois dias em Paris, fazer um giro de 20 dias por diversos países e então voltar para Paris e lá passar uma semana. Nessa primeira escala iríamos sair de Paris com mais dinheiro do que o permitido. Já de posse da bagagem dirigi-me a um posto policial, expus a situação e o policial perguntou quanto eu carregava, preencheu um papel e, ao entregar-me, perguntou pelo dinheiro. Ao me ver abrir o cinto, foi superenfático:
– Não, senhor, não é necessário!.
Acrópole
Meu amigo-irmão, Cyro Del Nero, que já se juntou aos deuses da Grécia da qual se tornou mestre e escritor, contava sua grande emoção em sua primeira ida àquele país. Ele ficou hospedado em casa de uma atriz grega, e como Atenas ainda não tinha água encanada, ao acordar serviu-se de uma água de uma jarra e de uma bacia para lavar o rosto. Ao enxugar-se, deu de cara, pela janela, com a Acrópole.
Sanitário
Em minha ida à Grécia, muito tempo depois, visitei a antiga cidade de Éfeso, hoje em território turco, e entre as ruínas fiquei conhecendo um sanitário público onde os fregueses usavam um espaço aberto, sem divisões, comunicando-se e tratando de negócios. Eram lápides de mármore com seus respectivos círculos vazados…
A torre
Emoção igual ao do Cyro sendo apresentado à Acrópole em Atenas, eu tive em minha primeira ida a Paris. Subindo a escada do metrô, na Rue Rivoli, dirigindo-me ao Museu Jeu de Paume, vi a Torre Eiffel apresentando-se, um postal real maravilhando um parisiense de primeira viagem.
Quintana
Dia dos Pais, ganhei de minha filha Rachel o Caderno H, de Mário Quintana, uma edição deste ano pela Alfaguara.
Lembrei-me que certa vez, indo a Porto Alegre, por coincidência, o tocaio Quintana estava lançando um livro. Comprei dois exemplares e entrei na fila para abraçar o amigo. Chegou minha vez e ao pegar o meu exemplar já com a dedicatória, pedi-lhe que fizesse uma dedicatória para amigo meu. Ele reagiu:
– Mas, tocaio, eu nem o conheço!
– E desde quando tu só escreves sobre o que conheces?
Ele riu e fez a dedicatória para João Carlos Magaldi.
Peguei Quintana naquilo que mais me identifico com sua obra, o elemento surpresa:
“Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto”.
*Este texto foi originalmente publicado em 26/08/2013.

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