São Paulo, anos 1940.
O pai dele era motorista de Carolina Ribeiro, diretora da Escola Caetano de Campos, na Praça da República. A mãe, faxineira da mesma escola. Ele, Erlon Chaves, negro como os pais, sentava-se à minha frente nas aulas do curso ginasial daquela escola.
Antes de conhecer Erlon, conheci sua voz, pois, desde menino, ele cantava num programa infantil da Rádio Difusora de São Paulo, depois Tupi.
Ainda no ginásio, Erlon inscreveu-se no concurso Mais Bela Voz Estudantil de São Paulo, de âmbito municipal. Chegou à final, no Ginásio do Pacaembu, e eu, presidente do grêmio, estava lá, para torcer pelo colega. Ele e uma estudante do Colégio Mackenzie dividiram o prêmio de melhor. Empataram.
Concluído o ginásio, iniciou seus estudos de música no Conservatório Musical Carlos Gomes, onde se formou em piano em 1950 e, recebendo orientação de três maestros, graduou-se em Harmonia, Regência e Instrumentação.
Pronto para se projetar na carreira, o cantor, arranjador, compositor, maestro e band leader trabalhou na TV Excelsior de São Paulo, veio para o Rio em 1965, onde chefiou as áreas musicais das TVs Tupi e Excelsior, criou a Banda Veneno, que acompanhava Jorge Benjor que, naquela época, se chamava Jorge Ben.
Erlon tinha como amigo-irmão o cantor Wilson Simonal. No episódio em que Simonal foi acusado, à boca grande, de que seria um informante do DOPS da Ditadura (que acabou com sua carreira), encontrei Erlon por acaso e registrei minha estranheza quanto ao fato. Erlon reagiu como fera ferida e, com impressionante carga passional, defendeu o amigo, acusando tudo como uma imensa calúnia. A verdade é que, fato ou calúnia, o episódio enterrou uma das mais vitoriosas e populares carreiras de cantor de nossa música popular.
Sábado, dia 2 deste mês, o band leader Max de Castro, filho de Simonal, promoveu um tribuno a Erlon Chaves, no Copacabana Palace.
A amizade com Simonal indiretamente custou a vida de Erlon. Pessoa de extrema personalidade, Erlon morreu de enfarte agudo, numa galeria comercial do bairro do Flamengo,
defendendo a imagem do amigo diante de um grupo de pessoas. Era 14 de novembro de 1974 e Erlon tinha 40 anos. Ano que vem, os 40 anos de sua morte serão objetos de muitas manifestações.
Confissão: Estou tão velho que a memória não se cansa de me devolver o passado.
Inté.
Vitrine (Correio Virtual referente à coluna anterior)
Mario, o ‘operador’ do restaurante do Mandala (Garrincha) é o filho do ‘falecido’, que pela estatura não deve ser como o pai, de Pau Grande… Sugiro na próxima visita pedir a la carte, um Mignon/Farofa Dolabela. Tão bom quanto o da Churrascaria Plataforma… Roberto de Jesus Castro, Rio.
O detalhe do traje domingueiro e doméstico (jogging) do então presidente Figueiredo, em sua última fala oficial pela televisão, mostra o desprezo que ele demonstrava por esta derradeira etapa de sua biografia. Todavia, ninguém poderá duvidar de sua franqueza (ou grosseria, como outros apelidariam tal gesto). O então general de Cavalaria terminou seus dias em profundo desencanto diante de si mesmo. O melhor que fará a História será acatar seu sincero e dramático pedido: – Esqueçam-me… E mil vivas ao Brasil!
Léo Christiano, seu leitor batendo palmas, Rio
Oi, Mario, sempre espero e leio, com muito prazer, suas crônicas. Na verdade, suas reminiscências, né? Um grande abraço. Al. Wanderley, Rio


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