Ainda Vinicius.
Domingo retrasado almocei no restaurante do Condomínio Mandala, na Barra da Tijuca, que nos fins de semana e feriados é operado pelo Garrincha.
O Garrincha, que conheço há mais de 30 anos, quando iniciou sua carreira no ramo de restaurantes, como garçom, na Churrascaria Carreta, em Ipanema – que não existe mais –, foi promovido a maitre na Churrascaria Plataforma, no Leblon, transformou-se em empresário e possui hoje diversos restaurantes.
Garrincha, notória personalidade dos frequentadores de restaurantes no Rio, é um nordestino bem-sucedido a quem os clientes, como eu, nem sabem o nome, tem as pernas em arco, como o ex-jogador que lhe empresta o apelido.
Quem rebatizou o ainda garçom da Carreta foi ninguém menos que Vinicius de Moraes.
Por falar no poetinha, vai aí uma declaração deste sócio de seu fã-clube: entre dezenas de suas composições geniais, vai aí a minha predileta, uma parceria de 1959 com Tom Jobim
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que a tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida.
No mesmo domingo em que almoçamos no Mandala, jogaram em Fortaleza (CE) Portuguesa de Desportos (SP) e Flamengo (RJ), cidade escolhida pela mandante, Portuguesa, dando continuidade ao moderno hábito de furtar às torcidas locais a possibilidade de assistir – ao vivo – seus times jogarem. Espero que essa atitude ajude a diminuir as dívidas milionárias dos clubes brasileiros.
Constrangedor, para a minha memória, é o nome do estádio onde se realizou o jogo, o popular Castelão, que remete ao nome de seu patrono, o marechal Humberto Alencar de Castello Branco, primeiro ditador do golpe de 1964, que inaugurou um cruel regime de exceção que se estendeu por 21 anos.
Quem conhece um mínimo da história deste país e quiser se divertir – o máximo – basta ler o discurso de posse do marechal como presidente (sic) em 15 de abril 1964. Transcorrido o seu governo e comparados – governo e fatos –, ocorreu-me batizar o ex-mandatário como o Pinóquio do Ceará, tamanho o amontoado das promessas mentirosas, entre as quais: “Meu procedimento será o de um chefe de Estado sem tergiversações no processo para a eleição do brasileiro a quem entregarei o cargo a 31 de janeiro de 1966.”
Na verdade, o cargo foi entregue ao 2º ditador, marechal Arthur da Costa e Silva, o responsável pela assinatura do Ato I-5, que transformou o país num estado assassino.
Coube ao 5º ditador, general João Baptista de Oliveira Figueiredo, promover o enterro de gala daqueles 21 anos de terror. Num pronunciamento oficial e nacional, pela televisão, apresentou-se de jogging, num verdadeiro deboche ao seu cargo. Confissão: Estou tão velho que tudo ficou muito distante.
Inté.
Vitrine (Correio virtual referente à coluna anterior)
Mais uma linda crônica sobre Vinicius. Estás auxiliando muito bem as comemorações pelos 100 anos dele. Morrer no dia do teu aniversário fez parte das imprevisibilidades dele. Bjs, Vera, Porto Alegre
Mario… quase um haikai
indelicadeza involuntária
morrer
no meu aniversário.
… Ainda um quase haikai
indelicadeza morrer
involuntário
aniversário.
Aniversário
Involuntário
Morrer
… vou dormir, basta de exercícios. Moisés Andrade, Olinda/Recife
Sua crônica, Mestre Mário, me inspirou a reler sua obra-prima: “Antonio’s, caleidoscópio de um bar”. Como Miele, em “Poeira de Estrelas”, você é um genial contador de histórias. Como dizem aqui em Florianópolis, no linguajar “manezês”, “Dais um banho, Ô!”. Abraço. Carlos Eduardo.
PS: tentei publicar esse breve comentário ao final da coluna, mas acusou erros de português. Culpa do programa, que não reconhece a divertida língua falada pelos nativos dessa bela cidade. Carlos Eduardo F. da Cunha, Florianópolis
Viva Mario! Você é mesmo o escritor do texto belo e enxuto. Mais ainda quando nos presenteia com estas maravilhas nascidas da paixão de Vinicius de Moraes. Saravá! Léo Christiano, Rio

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