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Quintana

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento. (Mário Quintana) Lá pelo fim de um ano de 1950, …

Não esquecer que as nuvens estão improvisando

sempre, mas a culpa é do vento. (Mário Quintana)

Lá pelo fim de um ano de 1950, Mário Quintana e eu estávamos dando uma volta pela Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega, onde ele hoje é escultura, e percebemos que havia diversos títulos de sexo escritos por padres. Mário não se conteve e disse-me:

– Tocaio (xará em gauchês), tive uma ideia…

– ?

– Faça você mesmo o seu filho.

Nos sete anos nos quais residi em Porto Alegre, Mário e eu trocamos duas coincidências, frequentamos a mesma clínica, ele para abandonar o alcoolismo (o que conseguiu) e eu para melhorar a cabeça, o que acho que não consegui direito. Nós dois, em épocas diferentes, moramos no Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana.

Já contei aqui que minha filha Rachel, no último Dia dos Pais, deu-me o livro Caderno H, do Quintana, publicado neste ano. Aproveitei o embalo e revisitei, também, partes de sua copiosa obra poética.

Na minha contabilidade de dívidas para com o grande poeta gaúcho, insere-se, além de sua extrema sensibilidade e delicadeza, a tradução dos volumes da grande obra de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.

Hoje, para quem gosta de poesia, ofereço um prato cheio de Quintana.

 

O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. Quem a encontra salva-se a si mesmo…

 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto;

alimentam-se um instante em cada

par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…

 

O poema

essa estranha máscara

mais verdadeira do que  a própria face…

 

O poema é uma pedra no abismo,

O eco do poema desloca os perfis:

Para o bem das águas e das almas

Assassinemos o poeta.

 

(Quem morre de morte morrida, aos 88 anos, não pode falar em assassinato. Ou pode?)

            Da vez primeira que me assassinaram

            Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…

            Depois, de cada vez que me mataram,

            Foram levando qualquer coisa minha…

            E hoje, dos meus cadáveres, eu sou

            O mais desnudo, o que não tem mais nada

            Arde um toco de vela, amarelada…

            Como o único bem que me ficou!

            Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

            Ah! Desta mão avaramente adunca,

            Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

            Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!

            Que a luz, trêmula e triste como um ai,

            A luz da morte não se apaga nunca!

Como o único bem que me ficou! 

Eu sou um eterno aprendiz de poeta e nunca soube fazer outra coisa na vida… No quarto ano do colégio, eu fui reprovado porque só estudava Português, Francês e História. O resto eu nem abria. Então meu pai me fez trabalhar na sua farmácia como prático. Depois de cinco anos fui fazer o que mais queria, trabalhar como jornalista no jornal O Estado do Rio Grande.

 

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios…

 

Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida – a verdadeira –

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.

 

Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.

 

E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém – ao voltar a si da vida –

acaso lhes indaga que horas são…

 

Naquela missa da Sexta-Feira da Paixão, notei que o velho Ventura rezava assim: 

Tchug tuchug tuchug tchug…  amém… Tchug tuchug tuchug tchug…  amém…  Tchug tuchug tuchug … 

– Assim não vale, seu Ventura.

– Ora! Ele sabe tudo o que eu quero dizer…

 

Era um poeta tão distraído que foi para casa fazer um Hai-kai  e fez um harakiri.

 

(Quanto ao homem que não suportava cerimoniais):

De repente, ele não pode mais e rebentou de riso em plena missa de corpo presente.

Ele quem?

Ora, o defunto…

 

Eis que descubro um retrato meu, aos 10 anos. Escondo, súbito,  o retrato. Sei lá o que estará pensando de mim aquele guri.

 

Esse estranho que mora no espelho (e é tão mais velho do que eu), olha-me de um jeito de quem procura adivinhar quem sou.

 

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto

É como se abrisse o mesmo livro

Numa página nova…

 

Em cada Dia Primeiro do Ano o céu é cuidadosamente

Pintado de azul.

 

Adolescente, olha a vida! A vida é bela!

A vida é bela… e anda nua….

Vestida apenas com teu desejo.

 

Lembranças que naufragaram

E que voltam num segundo…

São como navios fantasmas

Surgindo do mar profundo. 

 

Eles cantam a noite inteira!

Não sabias (?)

Os grilos são poetas mortos….

 

Venho do fundo das eras,

Quando o mundo mal nascia:

Sou tão antigo e tão novo

Como a luz de cada dia…

 

Entre o olhar suspeitoso da tia

E o olhar confiante do cão

O menino inventava a poesia…

 

Vitrine (Correio virtual)

Jovem Mário, vivas ao Manoel.  Moises Andrade, Olinda/Recife

 

Independente se Drummond que não aceita ser o primeiro ou Manoel que não se importa, deve ser bom ser poeta!!! Aderbal Moura, Rio

Grato, Mario, pelas encantadoras poesias. E desculpe-me também pelas verdades que, às vezes,  precisam ser reveladas. Abs, Eng. José Carlos Pellegrino,  São Paulo

Vitrine (Correio virtual)

Jovem Mário, vivas ao Manoel.  Moises Andrade, Olinda/Recife

Independente se Drummond que não aceita ser o primeiro ou Manoel que não se importa, deve ser bom ser poeta!!! Aderbal Moura, Rio

Grato, Mario, pelas encantadoras poesias. E desculpe-me também pelas verdades que, às vezes,  precisam ser reveladas. Abs, Eng. José Carlos Pellegrino,  São Paulo

Autor

Mario de Almeida

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