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Manoel

Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira. (Manoel de Barros) Uma vez me perguntaram o que eu …

Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira. (Manoel de Barros)

Uma vez me perguntaram o que eu achava do poeta Manoel de Barros. Nem titubeei:

 – Um espanto.

Manoel Wenceslau Leite de Barros – Manoel de Barros – nascido em Cuiabá, hoje, aos 96 anos, advogado e fazendeiro, mora em Campo Grande.

Há muito tempo, numa Bienal em que ele autografava, encontrei-o sozinho (!), longe da badalação e curtindo um anonimato do qual ele mesmo se diz responsável. Bati um papo na base da simpatia e admiração.

Considerado por muitos como o maior poeta brasileiro vivo, foi objeto de uma recusa de Drummond que, inda vivo, recusou o título, atribuindo-o a Manoel de Barros.  

Independentemente de “maior” ou “melhor”, não entendi como na coluna que versei aqui sobre versos, omiti a presença do poeta do Pantanal. 

Para gáudio dos que, como eu, são muito sensíveis às invencionices do grande Manoel, vão aí algumas “joias de sua lavra”:

     A maior riqueza do homem

     é a sua incompletude.

     Nesse ponto sou abastado.

     Palavras que me aceitam como

     sou – eu não aceito.

     Não aguento ser apenas um

     sujeito que abre

     portas, que puxa válvulas,

     que olha o relógio, que

     compra pão às 6 horas da tarde,

     que vai lá fora,

     que aponta lápis,

     que vê a uva etc. etc.

     Perdoai

     Mas eu preciso ser Outros.

     Eu penso renovar o homem

     usando borboletas.

         *

     A mãe reparou que o menino

     gostava mais do vazio

     do que do cheio.

     Falava que os vazios são maiores

     e até infinitos.

           *

     Prezo insetos mais que aviões.

     Prezo a velocidade das tartarugas

     mais que a dos mísseis.

     Tenho em mim

     esse atraso de nascença.

     Eu fui aparelhado

     para gostar de passarinhos.

     Tenho abundância

     de ser feliz por isso.

     Meu quintal

     É maior do que o mundo.

         *

     O rio que fazia uma volta

     atrás da nossa casa

     era a imagem de um vidro mole…

     Passou um homem e disse:

     Essa volta que o rio faz…

     se chama enseada…

     Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

     que fazia uma volta atrás da casa.

     Era uma enseada.

     Acho que o nome empobreceu a imagem.

          *

     Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.

     Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

     No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de

     sol, de céu e de lua mais do que na escola.

     No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo

      do que os padres lhes ensinavam no internato.

     Aprendeu com a natureza o perfume de Deus

     seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul

     E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida

     no tronco das árvores só serve pra poesia.

     No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.

     Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,

     envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros

     e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.

     Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore

     porque fez amizade com muitas borboletas.

                                         *                                      

    Se a gente jogar uma pedra no vento

    Ele nem olha pra trás.

    Se a gente atacar o vento com enxada

   Ele nem sai sangue da bunda

   Ele não dói nada.

   O vento não tem tripa.

   Se a gente enfiar uma faca no vento

   Ele nem faz úi.

 

    A gente estudou no colégio

   Que vento é o ar em movimento

   e que o ar em movimento é o vento.

   Eu quis uma vez instalar

   uma costela no vento

   a costela não parou nem.

   Hoje eu tasquei uma pedra no

   organismo do vento.

   Depois me ensinaram que

   o vento não tem organismo.

  Fiquei estudando.

      *

     No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal:

     Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.

     *

     Inté.

 

Vitrine (Correio Virtual)

Interessante, Mário, como tua coluna com versos despertou a verso/atilidade de teus leitores. Não há quem não seja sensível à poesia, logo ressoa no íntimo de cada um. E desperta as lembranças, como aconteceu. Fiquei feliz com isso. E essa contribuição do Pe. Anchieta é uma maravilha. Sou fã dele, pelo legado educacional que nos deixou. Trouxeste um pequeno tesouro à mostra. Lembrei também do Gregório de Mattos, tão “antigo” e tão moderno. Bj, Vera (Verissimo), Porto Alegre

Bom dia, mano.  Gostoso este artigo para nós que já usamos tanto estes caminhos. O caminho do mar é usado hoje como passeio turístico. Não sabia que o Anchieta fosse espanhol. Pequeno lapso: A fundação do colégio foi em 1554. Dia 17 Ney e eu viajaremos, com direito a passagem pela Espanha e Portugal. Abração Coelho  (Eduardo), São Paulo

Num dos vários Congressos Estaduais dos Municípios do Estado de São Paulo, tive a honra de ser incumbido de elaborar uma tese oficial, em nome do município de Itanhaém, na qual foi projetada uma rodovia alternativa para ligar Itanhaém ao sul da cidade de São Paulo, cujo objetivo maior era desafogar o pesadíssimo trânsito da Via Anchieta e da Rodovia dos Imigrantes, dotando a região de outra possibilidade de acesso. A tese foi aprovada por unanimidade com muitos louvores das localidades próximas de Parelheiros, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Itariri e outras. Só que, depois … Bem, depois … esquece, tá!!! Estamos num país chamado Brasi … José Carlos Pellegrino, São Paulo

Autor

Mario de Almeida

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