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Figueiredo era bom de contas

A Copa do Mundo de Futebol de 1986 deveria ser realizada na Colômbia que, por motivos de ordem econômica, abriu mão do evento. Em …

A Copa do Mundo de Futebol de 1986 deveria ser realizada na Colômbia que, por motivos de ordem econômica, abriu mão do evento. Em 1982, a FIFA ofereceu a realização aos Estados Unidos, ao Canadá e ao Brasil que declinaram do convite.

Recebi e repasso cópia do e-mail do filho do então presidente da República, João Figueiredo – Paulo Figueiredo – a um amigo, contando sobre os bastidores da decisão do Brasil não haver aceitado os encargos impostos pela FIFA.

Como essa cópia só poderia chegar a mim através do conhecimento do seu autor ou de seu destinatário, sinto-me à vontade para colocá-la aqui, por ser oportuna, face ao que já aconteceu e vai acontecer referente à Copa 2014.

Com a palavra, Paulo Figueiredo:

“Célio, de repente hoje eu comecei a receber uma enxurrada de mensagens mencionando esta estória, que está abaixo. Como você sabe, sou, evidentemente, talvez o cara mais suspeito para tecer considerações sobre qualquer matéria que faça juízo de valor a respeito de meu pai, especialmente em atos do seu governo.   Mas sobre este episódio, especificamente, não posso me furtar a lhe dizer, e com certeza absoluta, que o que está relatado é totalmente verdadeiro.   Até porque, veja você, calhou de eu estar presente no mencionado encontro. Tinha acabado de vir do Rio, e fui direto ao Torto ver os meus pais, como eu sempre fazia assim que chegava em Brasília. Soube que o “Velho” estava reunido com o Havelange, no gabinete da residência. Como sempre tivemos com ele uma relação muito cordial, me permiti entrar para cumprimentá-lo e dar-lhe um abraço.   ‘- João e João? Esta reunião eu tenho que respeitar!’, brinquei irreverente, dele recebendo um carinhoso beijo. (Havelange sempre teve o hábito de beijar os amigos). Ia, logicamente, me retirar, mas Papai me deixou à vontade:   ‘- Senta aí, estamos falando de futebol, que é coisa que você adora’.   Fui logo sacaneando : ‘- E ele já descobriu um jeito de salvar o Fluminense ?’ (risos – os dois, tricolores roxos), ‘- Ainda não, mas vamos chegar lá. Estamos conversando sobre Copa do Mundo…’   E deu-se então o diálogo, do qual o trecho que está contido no texto fez parte, realmente. O Velho não concordava que o país despendesse quase 1 bilhão de dólares (valor abissal para os números daquela época) para tentar satisfazer o caderno de encargos da FIFA, principalmente diante do quadro de enorme dificuldade financeira que o Brasil atravessava. Uma situação cambial dramática, resultante de um aperto histórico na liquidez internacional – taxa de juros internacionais de 22% a.a, barril de petróleo a 50 dólares no mercado spot  – agravada pela necessidade de se dar continuidade a um importantíssimo conjunto de obras de infraestrutura. Muitas delas iniciadas, diga-se de passagem, em governos anteriores, mas que não poderiam ser paralisadas por serem realmente de vital importância para a continuidade do nosso desenvolvimento.   Para se ter uma ideia: produzíamos apenas, em 1979 (quando houve o segundo “oil shock”), 164.000 barris de petróleo por dia, contra uma demanda de 1,2 milhões. Um forte investimento nos programas de prospecção e mudança no perfil do refino, associado à criação e implementação do Proálcool, permitiu que em 1985 se atingisse uma produção de 640.000 barris/dia, fora a triplicação das reservas cubadas de gás, e ainda tivéssemos grande parte da bacia de Campos instalada (o que, sem medo de falar bobagem, até hoje garante o abastecimento do nosso carro ou o óleo diesel do nosso busão).   Realmente, era contrastante com o que se fez (ou melhor, o que NÃO se fez) nos governos seguintes: várias hidrelétricas, começando por Itaipu – até hoje é a segunda maior do mundo, além de Tucuruí, Balbina, Sobradinho, etc., todas com as suas gigantescas linhas de transmissão; conclusão da expansão de todas as grandes siderúrgicas (CSN, Usiminas, Cosipa e outras – que fizeram o Brasil passar de crônico importador para exportador de aço); conclusão das usinas de Angra 1 e 2; um programa agrícola que permitiu que ainda hoje estejamos colhendo os frutos da disparada de produção de grãos –  graças à Embrapa, ao programa dos cerrados e ao programa ‘Plante que o João garante’; um salto formidável nas telecomunicações, até então ridículas; multiplicação da malha rodoviária – a mesma, praticamente, na qual hoje ainda rodamos, só que agora sucateada e abandonada; inauguração de dois metrôs: Rio e São Paulo; instalação de vários açudes no sertão nordestino; e, o que não vejo ninguém da mídia mencionar (até porque não lhes interessa): a construção de 2.400.000 casas populares, mais do que toda a história do BNH até então, e muito mais do que a soma de todos os outros governos (?!) que sucederam. Isto é apenas o que eu me lembro agora, ao aqui escrever rapidamente. Em resumo: naquela época, o dinheiro dos impostos dos brasileiros, simplesmente, destinava-se ao desenvolvimento do país.   Daí não ter havido condições de se fazer a Copa de 1986. O mais engraçado foi no dia seguinte: Delfim era muito ligado ao então presidente da CBF (ou ainda era CBD?), Giulitte Coutinho, que, lógico, tinha todo o interesse em trazer aquela Copa para o Brasil. No despacho, Delfim foi logo colocando: – ‘Presidente, trago aqui os números globais de custo para fazermos a Copa, blá, blá, vai dar entre uns 300 a 500 milhões de dólares, blá, blá …’   O Velho, que já havia pedido ao SNI para preparar um estudo acurado, cortou sumariamente : -‘Não é isso não, Delfim, você está enganado, iria custar isto, mais isto, mais aquilo … e pode esquecer porque nós não vamos entrar nesta fria!’   Mas, para concluir, já falando do presente: o que se está fazendo com o povo brasileiro é simplesmente criminoso. Só que a roubalheira na construção dos estádios é apenas a cabeça do iceberg …   Só chamando um Aiatolá para dar jeito, mesmo.   Grande abraço, P Fig” 

Inté.

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Ah, Mário! Simples assim. Gosto não se discute e encontrar a “turma” com os mesmos gostos não é coisa simples. Pensando bem, gostos parecidos, até que nem é tão difícil assim. Caráter para praticar o que se prega é que está difícil mesmo de encontrar. Bjx. Circe Saudades Aguiar

Grande! Awesome, como dizem os americanos. O quê? Tua última coluna. Amei. Não dá para discordar, nem precisa. É o teu jeito, até te vi digitando no computador. Bjs, Vera (Verissimo), Porto Alegre

Jovem Mario, não gosto do “cerca lourenço “… Moisés Andrade, Olinda/Recife

Olá, Mario. Gostei muito de saber das coisas que você não gosta. Parabéns pela simplicidade e sabedoria das apreciações. Quanto sapo temos que engolir para viver em sociedade! Me fez lembrar que não gosto de motorista que passa pelo acostamento quando o trânsito está parado. Não gosto de morar em outra cidade e encontrar você tão pouco. Um abraço. Eduardo Coelho, São Paulo

Autor

Mario de Almeida

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