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Quebrando o silêncio

Há muitos anos escrevi que, por uma questão de nível, não escreveria mais sobre política. E não escrevi. Eis que de repente a nação …

Há muitos anos escrevi que, por uma questão de nível, não escreveria mais sobre política. E não escrevi.

Eis que de repente a nação é tomada por uma súbita escalada de protesto, cujo estopim foi o aumento das tarifas de ônibus e de metrô.

Foi feliz a motivação, pois englobou as partes mais carentes da população que, ausentes da discussão política, sentem no bolso os perversos efeitos da inflação.

A simples diferença de centavos sacudiu a sociedade no seu todo, incorporando ao protesto a soma de mazelas que, de há muito, faz do Brasil uma nação envergonhada. Um protesto não ideológico, não partidário, mas de forte cunho político.

Estou quebrando hoje o meu jejum na escrita, pois o protesto que mobiliza os ativistas é o meu protesto traduzido em anos de silêncio.

Vivi duas ditaduras e assisti, envergonhado, ao então ditador João Baptista Figueiredo dar uma entrevista como presidente agasalhado num jogging.

Minha vergonha como brasileiro, atualmente, atingiu um nível que não permite comparações, pois os três poderes republicanos estão mergulhados não apenas num quadro de corrupção, mas de incapacidade de gestão.

A violência e a criminalidade em índices insuportáveis; a corrupção descarada e impune; o dólar em alta; o PIB pífio; a indústria sem competitividade internacional; a evasão de divisas; o transporte e a saúde públicos; a mobilidade urbana; fortunas jogadas no lixo em obras paralisadas; a política descambando de forma antecipada para a luta eleitoral são apenas alguns itens de uma calamidade sinistra, onde a má qualidade da educação aborta um futuro progressista.

Terça-feira, 18 de junho, Arnaldo Jabor, que não vem poupando o caos da nação em sua coluna semanal em O Globo, assim concluiu seu texto: “Se não houver núcleos duros dos fatos, dos acontecimentos presentes e prováveis, as denúncias caem no vazio abstrato tão ibérico e tão do agrado dos corruptos e demagogos.

Por isso, permito-me sugerir alguns alvos bons:

Descobrir e denunciar por que a Petrobras comprou uma refinaria por 1 bilhão de dólares em Pasadena, Texas, se ela só vale 100 milhões? Por quê?

Por que a Ferrovia Norte Sul, que está sendo feita desde a era Sarney, ainda quer mais R$ 100 milhões para mais um trechinho. Saibam que na época, há 27 anos, a Folha de S. Paulo fez uma denúncia genial: botou na página de classificados um anúncio discreto onde estava o resultado da concorrência dois dias antes de abrirem as propostas. Claro que a concorrência era malhada. Foi um escândalo, mas continuou até hoje, comandada pela Valec, de onde o ex-diretor Juquinha, indescritível afilhado do Sarney, supostamente teria tascado R$ 100 milhões.

Por que as obras do Rio São Francisco estão secas?

Por que obras públicas custam o dobro dos orçamentos?

Por que a inflação está voltando?

Por que a infraestrutura do país está destruída?

Por quê?”

Impossível não registrar neste desfile cívico que mobiliza a pátria os episódios degradantes de violência e vandalismo protagonizados por uma banda podre da nação. A violência dos marginais faz parte dos motivos do protesto e, como tal, tem que ser combatida.         

Não tenho mais idade e nem saúde para levar o meu protesto para a praça pública, mas estou feliz pelo povo estar avalizando meus anos de silêncio.

Inté.

Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)

Jovem Mario, bom dia… Você… sempre generoso… Obrigado, Moisés Andrade, Olinda/Recife

Autor

Mario de Almeida

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