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Outonos

Colocou os pés na rua e sentiu a brisa como quem resgata uma promissória vencida há muito. O céu azul lá em cima brincava …

(Coluna originalmente publicada em 02/04/2007)

Colocou os pés na rua e sentiu a brisa como quem resgata uma promissória vencida há muito.

O céu azul lá em cima brincava de infinito, anunciando que o outono fincara pé. Um suspiro demorado expulsou lembranças das últimas gotas de suor.

Captou o testemunho de uma vida escondida na copa da amendoeira sobre sua cabeça: bem-te-vi. Por não avistar o pássaro, foi em frente sem responder.

De uma praça não distante, chegava a algaravia da criançada brincando.

Tudo muito certo, tudo calmo. O pensamento, com vida própria, fugiu para o passado. Contrariado, dobrou-se ao balanço do que acontecia.

Contabilidade confusa, a vida é incontável. Um nascimento vale quantos pontos? Morte de pessoa amada, subtrai quanto?

Conseguiu driblar o incômodo aprisionando os olhos no canteiro de flores. Uma borboleta resolveu enfeitar o visual e pousou na folha verde que seria cor de cobre muito breve. Olhou para a mão enrugada e lembrou-se de quando lisa.

Feliz de não estar próximo ao espelho, determinou que o momento seria como quisesse. É proibido não se inventar.

A razão cobrou:

– Viver não é invenção?

Sem respostas, deu de ombros. Viver é importante, explicar não.

Corrigiu-se: viver tem vida própria, explicação se a gente quiser. Pouca gente quer.

Prestou mais atenção na algaravia infantil. Aquelas vozes não estavam impregnadas em sua memória desde os tempos em que era uma delas? Três, quatro anos? E depois? Todo aquele tempo não estava marcado por tardes e tardes em que vozes anunciavam que o futuro estava ensaiando?

Pensou nos anúncios, nas marcas dos produtos e nas outras marcas. Aquelas vozes infantis eram marcas repetidas em centenas de tardes de cada um. Por quantos milhares de anos aquelas vozes ecoavam?

As marcas dos ritos, das comemorações, das tardes infantis são marcas, senão eternas, quase.

Será que o homem que muda o mundo não se muda? Ou só a criança não muda?

Cuidou que estava azul, era outono, havia a brisa amiga e as folhas ficariam cor de cobre.

Cabelos castanhos, dizia o documento, mas estavam brancos. Fixou os olhos no azul, no infinito, na fantasia de ser eterno.

Mas era breve, sabia. Suspirou.

Inté

Vitrine (comentários ainda sobre a coluna da Pretinha)

Ao pé da coluna anterior:

Preta, preta, pretinha – “Querido Mario, li atrasada a crônica da pretinha. Que cadela mais amada. E como estes seres nos fazem felizes, não é? O meu Dalai é bem assim…Também me avisa, mesmo que eu não queira, quando alguém bate no interfone e ele interrompe meu sono com seus latidos. Pretinha, com certeza, ficou faceira demais com a tua lembrança. bjs” Marcia Fernanda Peçanha Martins – Porto Alegre

E-mail: Não sei se vc esqueceu ou optou por não dar crédito ao marginal do Andreata, mas a Pretinha tinha uma “afeição” toda especial para com ele e suas cabeças de negro. Sempre que o delinquente chegava ela se arrepiava toda… Abração, Eduardo Lorca, Rio de Janeiro

Autor

Mario de Almeida

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