Há mais de seis meses teve início uma obra (inda não terminada) em cima do meu apartamento onde, além de morar, tenho meu escritório e centralizo toda a minha vida.
Das 9 às 17 horas, por mais de dois meses, minha permanência em casa, de segunda a sexta-feira, nesse horário ficou impossível.
Consequências: depressão, psiquiatra e psicóloga.
Minha força e energia foram para o espaço: abandono da musculação, da piscina e da bocha.
Consegui, durante meses, escrever e enviar minha coluna semanal para este espaço. Nas últimas semanas, brigo contra a falta de assunto e, na última, joguei a toalha e pedi para republicarem uma crônica antiga.
Como tenho publicado aqui mais de 400 colunas, esse expediente vai funcionar por algum tempo, que espero pequeno, pois me recupero, aos poucos, dos males da saúde.
Hoje, em saudação ao outono, republico uma crônica de 25.10.2004, onde a natureza está presente.
Os ventos e os tempos
Estudei uns 10 anos numa escola tamanho quarteirão, na época em que, quase sem indústrias poluidoras, sem desmatamentos e sem o prejuízo urbano dos milhões de automotivos, São Paulo possuía quatro estações bem definidas. No hoje bairro do Morumbi eu, nos cipós, brincava de Tarzan e, certa vez, jantando em casa de um amigo, no bairro do Butantã, descobri que o edifício fora construído bem em cima de uma cachoeira onde a gente, no verão, tomava banho. Entre coisas fabulosas, essa escola – Caetano de Campos –, hoje Secretaria de Educação do Estado, está situada em meio a um grande jardim. Se a gente esquecia que a Primavera havia chegado, o jardim lembrava.
Defronte à escola, ou vice-versa, (estava) está a Praça da República, hoje um espaço marginal onde, antes mesmo da idade escolar, eu brincava. A amendoeira que dava sombra aos meus sonhos permanece lá, ainda que todos os sonhos já tenham sido sonhados, ou não serão mais. Estive em setembro, às vésperas da Primavera, em Porto Alegre e ela já chegara antes de mim. Ipês roxos e amarelos, jacarandás e flamboyants disputam, todos os anos, concursos de belos e exóticos coloridos. Entre grandes e médias cidades brasileiras, a Primavera de Porto Alegre é única, assim como jurava o globe trotter Erico Verissimo em relação ao crepúsculo do verão sobre o Guaíba.
Certa vez, no Inverno de Porto Alegre, perguntei a uma empregada como estava o tempo e ela, acusando o minuano, respondeu: – Hi, seu Mario, tá um vento tão soprado! Quando fui pela primeira vez a Montevidéu, era início de setembro, a temperatura oscilava entre 0º a 8º Celsius e um minuano muito atrasado comia bravo. Whisky, só na festa do Dia da Pátria, na Embaixada do Brasil e na casa de Vinicius de Moraes, pois o poetinha, apesar dos primeiros sucessos como compositor, era o nosso Adido Cultural. Anos depois seria demitido do Itamaraty e chamado de vagabundo por Costa e Silva. Aliás, quem foi mesmo Costa e Silva!?!
Nos botequins da capital uruguaia – todos calafetados – o que quebrava mesmo o galho era a boa grappa argentina, boa e barata, aguardente obtido a partir do bagaço da uva Cabernet Sauvignon. Luiz Carlos Maciel, Paulo César Peréio, Paulo José, companheiros da jornada teatral, e eu, tínhamos um ritual: tomar uma grappa antes de atravessar uma rua e outra, depois (Oh juventude, oh saúde!).
Estive algumas vezes na Europa, durante a Primavera, e salta aos olhos o amor do povo pelos gramados bem tratados e pelos jardins floridos. Se o outono daquele continente possui uma luz mágica, como se quisesse esconder algum segredo mais sutil, a Primavera é uma palheta de pintor ensandecido, um festival despudorado de cores. Os ingleses parecem que têm um único hobby: a jardinagem. Eles, inclusive, possuem “jardins particulares” aos milhares, ou seja, moradores de um determinado lugar têm os seus jardins gradeados e suas respectivas chaves.
Na Inglaterra, a Páscoa cai sempre na Primavera, o que permite imaginar a grande farra que deveria ser, antigamente, o banho público nos lagos e rios, quando se celebrava a ida do frio e a chegada da higiene. Não sei como o pessoal agüentava, mas o mau-cheiro corporal era atenuado, durante o Inverno, com os bolsos cheios de folhas de alfazema. Quem sabe, naqueles tempos, os ventos levavam..?
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Mario querido,
mais uma vez você brilha com a sua lucidez e com o nível elevadíssimo de consciência. Coisa tão rara nestes nossos dias. O politicamente correto é de um cinismo e de uma burrice enorme. Tão enorme que tem gente querendo censurar Monteiro Lobato por ter criado o personagem da Tia Nastácia, uma preta velha de beiços grandes. Corremos o risco de pegar cadeia, sem direito a pagamento de fiança, pelo crime de demonstrar carinho, intimidade, companheirismo com um amigo de infância chamado de “negão”, cujo apelido ele sente orgulho. Não. Podemos, no máximo, chamá-lo de afrodescendente. É deplorável. Mas aí vem você e lava a alma da gente apresentando este festival de situações que mostram o quanto que a vida vai se tornando amarga e menos leve, com este engessamento que é produto da ignorância, do recalque, da idiotice que pensa mudar o mundo através de dispositivos legais.
Abraços. Continue assim. Isnard (Manso Vieira), Rio.
Mario, de quem será que foi a brilhante ideia de multipartir a sociedade em grupos pelas suas coitadezas? A violência aumentou ou é impressão minha?
Você fez bem em continuar ‘incorreto’.
bjx de saudades. Circe (Aguiar), Rio

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