Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Ju:
Seu e-mail sobre a coluna anterior dizia:
“Querido tio Mario,
Em meio a tantas correrias, confesso que acabo não conseguindo ler sua coluna todas as vezes que gostaria. No entanto, cada vez que consigo, sou tomada de ternura. Adoro seus textos! E esse específico acertou em cheio meus devaneios de hoje. Um beijo da sobrinha-neta. Ju”
Eu lhe respondi com beijos ternos, saudosos e carinhosos.
É fácil entender na minha resposta os motivos claros dos saudosos e carinhosos, mas qual o significado de sentir ternura por uma pessoa, independente do grau de relacionamento?
As situações podem esclarecer conteúdos como, por exemplo, olhar por um vidro um berçário de uma maternidade onde palpitam vidas recém-chegadas. Se o olhar provocar ternura vai nele uma resposta a uma provocação sentimental, vai parte de uma interrogação exposta por destinos que deram início a uma trajetória, um complicado jogo de dominó em que as circunstâncias e as decisões geram os caminhos.
Não foi esse olhar nos bebês, entretanto, que chegou em seu e-mail e que voltou na minha resposta. Essa vinda e ida de ternura transcende o parentesco, mas exige uma recíproca relação de afeto, uma empatia de química desconhecida, mas real.
Você é psicóloga e, por isso, quando usou a palavra ternura, sabia perfeitamente que se referia a um sentimento cujo significado absoluto faz parte do universo do inefável.
Não explico o motivo de a ternura, posto que inefável, no caso, ser algo muito próximo à solidariedade existencial, aquela consciência da precária condição humana, do saber todos os percalços a que ela nos expõe e une. Por isso, a ternura transcende o perceptível, nos enleva e eleva.
Ju: apesar de tentar cercar aqui alguns significados da ternura, sei que consegui, apenas, roçar algumas verdades, mas, mesmo sem luar e sem conhaque, fiquei “comovido como o diabo”. Será ternura?
Seu tio-avô Mario
Inté.
Vitrine (Comentários dos leitores sobre a coluna anterior)
Coisa boa esse teu vai e vem. Embala, diverte, faz pensar realmente que existir é o que existe. Parece que a Thatcher foi Sartreana. Viste o filme? Beijo. Vera (Verissimo), psicóloga, poeta, tradutora. Porto Alegre
Mario, Mario de Almeida, me perdoe o lugar-comum, mas quando você escreve prosa, faz poesia. Abração, Juvenal (Azevedo), jornalista e publicitário, São Paulo. Juvenal
Querido tio Mario, em meio a tantas correrias, confesso que acabo não conseguindo ler sua coluna todas as vezes que gostaria. No entanto, cada vez que consigo, sou tomada de ternura. Adoro seus textos! E esse específico acertou em cheio meus devaneios de hoje. Um beijo da sobrinha-neta. Ju (Juliana Ferreira Santos Farah), psicóloga, São Paulo
Eu adorava seguir as formigas e as que levavam folhas enormes eram as minhas preferidas!!!!!!!!!!!!!!!! Obrigada pelas palavras sobre o dia 8 de março, você é sempre um gentleman! Beijos, Claudia Almeida, Rio
Prezado Mario, essas manifestações existenciais já me levaram a pensar o que me diferencia de um inseto, se não me pertence a escolha … mas citando o mesmo pensador Sartre fico assim: – “ O homem não é nada mais do que aquilo que faz de si próprio”.- “Nasci para satisfazer a grande necessidade que tinha de mim mesmo”. Será? Abraços. Aderbal Vieira, executivo financeiro, Rio
Jovem Jovem Mario, Obrigado. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife

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