Eu ainda não tinha seis anos de idade quando minha família mudou-se da Campinas, onde nasci, para São Paulo. Minhas lembranças deste primeiro contato com uma cidade grande perderam-se em meio à famosa garoa paulistana que não existe mais.
Sobrou-me a memória, quase nítida, de meu pai levando-me ao Bar Automático, na ladeira inicial da Avenida São João, onde doces e petiscos, dispostos em quadrados, eram vistos, cada um, através de pequenos vidros. A gente colocava uma moeda referente ao preço, o vidro se abria e você apanhava sua guloseima. O sistema automático justificava o nome do bar que também não existe mais.
Meio século depois, na Suíça, numa estação de metrô de Zurique, dei-me de cara com um imenso “automático” moderno, um sistema digital “robotizado” e com a mesma finalidade.
Hoje, não são poucos os interlocutores menos jovens que se queixam das mudanças de comportamento com a expressão “os tempos mudaram muito”.
Minha primeira reação, que a civilidade cala, é a de que não fora a longevidade e o queixoso teria vivido menos mudanças. Esse pensamento dispara, sem ordem e sem divisão por gêneros, para a imensa quantidade de mudanças, incluindo a de costumes, acontecidas no século XX e que prosseguem neste século. Em 20 de julho de 1969, o astronauta americano Neil Armstrong, foi o primeiro homem a pisar na Lua e avistar, de lá, a Terra. No mundo inteiro, telespectadores boquiabertos, acompanharam aquele pisar humano em nosso satélite.
Essa chegada à Lua resultou de três conhecimentos básicos: Informática, Transporte e Comunicação, ou seja, proporcionaram os meios para criação da nave especial, seu monitoramento e a transmissão do evento via TV.
Em 1928, Alexander Fleming deu início às pesquisas sobre a penicilina e em 1941 ela estava nos balcões das farmácias, livrando a humanidade da tuberculose. Em 1988, graças ao trabalho da Organização Mundial da Saúde, a poliomielite foi extirpada, a exceção de alguns pequenos bolsões do planeta.
O surgimento da pílula anticoncepcional libertou a mulher sexualmente e lhe abriu novas possibilidades de trabalho e de planejar sua vida familiar. O tabu da virgindade pré-nupcial foi devidamente sepultado, namorados dormem na casa dos pais, e os motéis não pedem certidão de casamento.
A minissaia criada nos anos 1960 por Mary Quant reafirmou a identidade feminina defendida por elas mesmo. Carnaby Street, berço da minissaia, virou uma rua da moda em Londres.
O divórcio e a formação legal de novos matrimônios estão gerando uma imensa quantidade de novas famílias e o tecido social amolda os tempos atuais de meios-irmãos.
A psicanálise, afirmação de status nos anos 1950, afirmou-se como terapia e, junto com os psicólogos proliferam por todo o país, dando novos significados ao vocabulário comum.
Hoje, a massa de gente que trabalha em casa, os passageiros de voos a jato, os usuários de carros ultra modernos, o telefone sem fio e com imagens geradas por mini câmeras, os aparatos tecnológicos dos hospitais, os mega e micro computadores e os novos meios de comunicação mudaram o mundo em escala gigantesca.
A comunicação inter pessoas passou a ser menos corpo a corpo e as redes sociais e jornais digitais criam teleamizades.
O mundo mudou graças à Ciência e à Tecnologia e, é claro, os costumes mudaram juntos. Tudo muito natural.
Achei que estava na hora do “Inté”, minha despedda até segunda-feira próxima, mas a brincadeira com notícias continua no Caderno de Esportes de O Globo e não achei justo privar vocês da palhaçada que virou um treino do Fluminense na semana passada:
“O Fluminense trocou o local do primeiro jogo da Seleção Brasileira pelo berço da cidade do Rio de Janeiro. Deixar as Laranjeiras para treinar no Forte São João, na Urca, foi uma viagem no tempo. Ao lado do campo, na Fraia de Fora, Estácio de Sá marcou território, em 1565. E ontem, o técnico Abel Braga consolidou as fundações do time titular. Como os heróis do passado, diante da invasão francesa, ninguém quer deixar a terra conquistada. A ameaça dos reservas expõe uma batalha considerada positiva pelo clube.”
Inda que sem o humor do Samba do Crioulo Doido, do Stanislaw Ponte Preta, compete com ele em doidice.
Inté.
Vitrine (Comentário dos leitores sobre a coluna anterior)
Ah, Mário… Me delicio com seus textos. Chego, “mediunicamente”, se me permite a expressão, a vê-lo e ouvi-lo, em minha frente, falando esse texto. Com a ênfase e a graça que sempre lhe foram peculiares. Saudades, sabe? Beijos. Rosália Amendoeira, executiva, Rio.
Mario, já recebi a nova Coletiva e lembrei de agradecer esta dos 100 anos. Me encantei, imprimi e levei pra ler e reler na minha cama, feliz da vida por fazer parte da coleção de e-mails brindados com sua Coletiva todas as semanas. Muito amor pra você. Lúcia (Gonzaga), funcionária pública aposentada, Fortaleza.
Muito prezado Mario, bom dia. De volta ao Recife encontro tua palavra. Obrigado. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.

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