O pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar
(Felicidade – Lupicínio Rodrigues)
Em julho de 1949, conheci o Rio de Janeiro, com um grupo de 19 amigos e colegas da Escola Caetano de Campos de São Paulo.
Nosso hotel foi uma praia da Ilha de Paquetá indicada pelo delegado local, ao qual fomos pedir a devida autorização para armar as barracas.
Nosso transporte, o tão cantado trem de Central, foi gratuito, através de um “passe” do nosso Exército. O Brasil era um país ainda não muito complicado e cheio de gentilezas.
Eu era um dos cozinheiros do grupo, com a vantagem de não ter que apanhar a água doce e nem lavar panelas e os etcéteras. Não existe almoço de graça.
No dia 9, quando completei 18 anos, um amigo que não pudera ir – Bibi – saiu de São Paulo e foi fazer a bacalhoada comemorativa.
Quando o grupo pegava a barca para cumprir o objetivo das férias – conhecer o Rio –, três ou quatro de nós ficavam no acampamento, guardiões das barracas.
Eu tinha, na cabeça, uma agenda a cumprir: conhecer a Confeitaria Colombo que, nos seus primeiros 50 anos, abrigara os artistas, escritores, jornalistas, poetas, poetas criadores dos anúncios, todo o grand monde carioca e os indefectíveis boêmios.
O edifício do então Ministério da Educação e Saúde Pública, hoje Palácio Capanema, tributo a Gustavo Capanema, o ministro que encomendou o projeto para uma equipe composta por Lúcio Costa, Afonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer foi visita obrigatória. Com a consultoria do famoso arquiteto franco-suíço Le Corbusier, o edifício, com obras iniciadas entre 1936 e inaugurado em 1947, virou ícone da moderna arquitetura brasileira.
Nesse ninho de cobras, um verdadeiro Butantã, Niemeyer, fazendo amanhã 104 anos, ganhou fama internacional, Lúcio Costa foi o urbanista de Brasília e Afonso Eduardo Reidy traçou o projeto urbanístico do Parque do Flamengo (Aterro) e, depois, criou na sua prancheta, para o mesmo Parque, o MAM – Museu de Arte Moderna. Todo os cobras fazem parte da história da arquitetura brasileira.
Não estava na “agenda”, mas sucumbi à sedução da Galeria Cruzeiro, um dos pontos mais populares e transitados da então capital federal, onde duas passagens (ruazinhas) internas, em cruz, deram o nome ao conjunto no qual e situava, inclusive, uma estação de bondes com destinos à Zona Sul da cidade.
No térreo do grande edifício da Galeria Cruzeiro, delimitado por um quarteirão inteiro entre a Avenida Rio Branco e o Largo da Carioca no fundo, funcionavam lojas, bares e restaurantes. Acima, os restantes quatro andares eram todos ocupados pelo Hotel Avenida, grande investimento da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico e que, inaugurado em 1911, tornou-se de imediato um grande point da então capital federal e mais um de seus muitos cartões-postais.
Na Lapa, conheci o Restaurante Capela, abrigo noturno da boemia e, é claro, ponto informal dos artistas e intelectuais da primeira metade do século 20.
O Capela resistiu à reforma urbana do Largo da Lapa, depois de derrubado o abrigo dos bondes – que deixaram de circular – e o casario onde funcionava. Mudou-se de panelas e garrafas para um local à pequena distância na Avenida Mem de Sá, artéria principal do bairro.
O tempo já deixou o novo nome – Nova Capela – bem velho. Famoso até hoje e prato de todos os dias é o seu cabrito assado com arroz de brócolos.
Não recordo se, logo no início da Avenida Mem de Sá, ainda havia, em 1949, o Cabaré Apolo, pois eu não sabia do caso, mais que prolongado, de Noel Rosa que, casado com Lindaura, apaixonou-se por Juraci (Ceci), dançarina de cabaré e prostituta, sua amante por muito tempo. Dessa paixão nasceu a música Dama do Cabaré e a do rompimento, uma das joias de Noel, Último Desejo, penúltima música do compositor e entregue à Ceci por um amigo comum:
Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje, sem foguete,
Sem retrato e sem bilhete,
Sem luar e sem violão.
Perto de você me calo,
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o teu beijo
Pois meu último desejo
Você não pode negar…
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga, diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
E às pessoas que eu detesto,
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim,
Que eu arruinei tua vida,
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim!
Nunca mais quero o teu beijo
Pois meu último desejo
Você não pode negar…
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Oi Mário, curti a coluna e já elegi a minha frase do ms “viver bem é a melhor vingança”. Estou em dúvida sobre motivo da vingança, seria de viver num pais-cidade cheio de mal educados, ou seria pelo fato de não sabermos escolher nossos políticos…? Bem chega, pois pensar muito nisto não é viver bem. Abraço. Sergio Goretkin, engenheiro civil, Rio.
Obrigado, Mário, pelo brinde periódico que são as tuas colunas. A propósito do que escreveu Mário Lago: “Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile”. Inicialmente com os meus filhotes e sobrinhos e posteriormente com colaboradores e amigos mais jovens, não raro eu “discursava”: Não fiquem sentados à beira da calçada vendo a banda passar. Participem dela, ainda que seja somente ajudando a segurar a corda que limita a sua área. Façam acontecer e terão chance de ver acontecer o que e como gostariam que acontecesse seja lá o que for. Um grande abraço. Marco Mazzoni, “doutor” em Informática, Rio.
Mario, belo, belíssimo texto! Rodrigo S. Menezes, publicitário, São Paulo.
(Referindo-se à crônica “Paulista, com orgulho”) Grato, Mario, pela lembrança de termos cantado juntos, na Caetano de Campos, a “Canção do Expedicionário”. Abraços. José Carlos Pellegrino, engenheiro, São Paulo.

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