Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile.
Mario Lago
Li uma vez, no caderno Prosa e Verso, de O Globo, um artigo de José Castello, colunista fixo daquele caderno literário, no qual ele nos passa pensamentos resultantes da leitura do romance Cartas de um escritor solitário do norte-americano Sam Savage, na tradução de Luis Reyes Gil.
Um livro amargo, considerando-se a coletânea de agruras e dificuldades expostas pelo autor. Agruras e dificuldades não me faltaram, também, mas eu seria injusto se escrevesse um livro amargo.
O que de fato chamou minha atenção foram as considerações do próprio Castello de como é a vida de um escritor quando não está escrevendo.
Sei que Drummond foi oficial de gabinete do Ministro da Educação e Saúde, além de jornalista; que Manuel Bandeira, professor de Português do Pedro II, ganhou mais dinheiro com a tradução de Mary Stuart, clássico de Schiller, para Cacilda Becker, do que com toda a sua obra poética enquanto vivo; sei que Guimarães Roda e João Cabral eram diplomatas, Monteiro Lobato, livreiro, e Nelson Rodrigues, jornalista. O que esses profissionais faziam em suas horas livres, nem suspeito.
Apesar dos livros publicados, não me considero um escritor, mas apenas um velho apaixonado pela palavra e dela um servidor em frentes diferentes, mas usei meu tempo disponível das diversas atividades profissionais, de mil formas também diferentes. Nem perco tempo com uma avaliação impossível.
Fui tomado pela análise festiva de minha condição de um velho apenas prejudicado pelas restrições da idade e os cuidados impostos pela condição de cardíaco operado e com safenas já condenadas.
Como a ideia da morte não me rouba a alegria de viver, alegria ampliada pelas presenças de duas filhas, uma neta, um genro, dois irmãos, um montão de sobrinhos, sobrinhos-netos e a grande companheira que, com menos 19 anos de idade que eu, já selou a minha última jornada como uma caminhada de amor recíproco.
O escritor Calvin Tomkins tomou emprestado o adágio basco “viver bem é a melhor vingança”, e narrou a vida do casal norte-americano milionário Gerald e Sarah Murphy, que viveram os famosos anos 1920 da França in loco, convivendo com a elite artística e literária do mundo que lá vivia.
Aquela narrativa ilustra muito bem o que significa a “alegria de viver”, expressa em francês pela joie de vivre.
Não sou milionário como o casal Murphy, amo a França mesmo não morando lá, nasci depois dos anos 20, mas carrego, no convívio e nas lembranças, um exército de amizades. A generosidade com a qual a vida me gratificou valida a definição do amigo Mario Quintana: “a amizade é um amor que nunca morre”.
Sábado, dia 26, dei-me conta que até na distribuição de minhas amizades por diversas faixas etárias, a vida me foi generosa, não com um, mas com muitos amigos que, se vivos, fariam hoje companhia à longevidade do Niemeyer.
Semana passada, o Rio iniciou, na Casa de Rui Barbosa, junto com o Museu da Imagem e do Som, as comemorações pelo centenário do nascimento do compositor e ator Mário Lago (26.11.2011) que se estenderão, com muita gente já comprometida, até novembro do próximo ano.
As minhas lembranças levaram-me ao “baú” e resgatei a cópia de um bilhete que mandei pra ele, que só me chamava de xará e foi decorrente de um trabalho para o qual chamei o Mario para gravar os textos de dois VTs para a Fundação Roberto Marinho e que foram ao ar sem as gravações feitas pelo Mario:
“Rio, 28.04.81
Mario
Soube que você está muito zangado comigo. E com razão. Tentarei explicar. Após a nossa gravação, fui jantar no Antonio’s e, a uma da manhã, fui editar os respectivos VTs.
Acontece que, na calada da madrugada, fui surpreendido com a péssima qualidade da fita de áudio (do áudio de 5 mensagens – e não apenas das duas que você gravou). Sem outro recurso e, face ao horário e ao absurdo de acordar você, pedi ao Dirceu que regravasse os 5 textos. Pedi inclusive, ao Dirceu e ao Waldeir Paulino que não comentassem nada com você, já que eu fazia questão absoluta de explicar o problema pessoalmente.
Entre minha intenção e a realidade, uma gripe e outras complicações de saúde me afastaram da estiva nossa de cada dia.
Assim como entendo sua zanga, espero que você entenda minha explicação.
A grande verdade é que não tenho tantos amigos assim para que me possa expor a perder uma amizade do valor da sua.
Com a admiração de sempre, o seu xará de Almeida.”
Mario me telefonou, passou na Fundação, pegou o cheque e fomos almoçar.
Inté.
Vitrine (Comentário do leitor sobre a coluna anterior)
Importante principalmente por causa da sua interação com as mensagens nesta conversa. Mário, querido. Não mandei ontem mas vou mandar hoje. Leio e me delicio sempre com suas “Colunas” – pois elas me ensinam alguma coisa ou me lembram delícias da minha vida, como essa: Tempo de guerra. Primário. Meu irmão salvo de navio brasileiro torpedeado na costa da Bahia (notícia essa que chegou quase um mês depois) Getúlio !!! Então, há anos não me lembrava do Hino do Expedicionário. Ainda sei todo!!!!, lembro-me de cantá-lo, com muito orgulho, na escola. Coisas do DIP!!!!!* …E EU TINHA UM IRMÃO NA GUERRA!!!! Meu irmão foi depois para o Recife e em ’45 voltou (agora sargento), para alegria de minha mãe, coitada. Só depois de muito tempo pude avaliar sua imensa dor. Essa lembrança é uma homenagem a Dna. Aurora.
Gostei muito. Beijo pra todos. Eu (Lia Moreira), publicitária, Teresópolis, RJ.
*O DIP referido pela Lia era o Departamento de Imprensa e Propaganda (Censura, inclusive) de Getúlio ditador, chefiado por Lourival Fontes. (M.A)
A coluna está um primor de calor humano, em relação ao Guilherme de Almeida. Saí aquecida dessa leitura. Como eram harmoniosos os versos de então! Beijo. Vera (Verissimo), gentil amiga-leitora-colaboradora, Porto Alegre.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial