Na coluna Iluminando lembranças, há 14 dias, referindo-me ao salto cultural de São Paulo nos anos 1940/50, escrevi: “Tenho certeza, como curioso das artes, amante dos livros e então futuro profissional de teatro, que cresci na cidade certa do Brasil daquela época”.
Semana passada, citando que o industrial Francisco Matarazzo Sobrinho – o Ciccillo – foi o primeiro presidente da Comissão do do IV Centenário de São Paulo e que, no início de 1954, passou o bastão para o seu sucessor, o poeta Guilheme de Almeida, prometi uma continuação sobre o assunto.
Comecemos por uma síntese sobre o clã Matarazzo no Brasil.
Francesco Antonio Maria Matarazzo nasceu em 1854, numa pequena vila no sul da Itália, e aos 27 anos imigra para para o Brasil, estabelecendo-se na cidade de Sorocaba, importante centro comercial paulista que havia sido, inclusive, no século XVIII, o maior mercado de muares do país, inaugurando o ciclo do tropeirismo em 1733.
Francesco, que iniciou sua saga econômica com um modesto varejo naquela cidade, virou Francisco e – décadas depois – já residindo em São Paulo e auxiliando financeiramente sua pátria, recebeu do rei da Itália, Vitor Emanuel III, o título nobiliárquico de conde.
Como esta coluna não trata do patriarca Francisco e nem de seus 13 filhos, basta dizer que, em determinado momento, a sociedade anônima IRFM – Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo espalhava-se pelo Brasil com os mesmos dias do ano: 365 unidades!
O empreendedor tinha uma ótica racional de negócios que se definia por “uma coisa puxa outra”: como comercializava trigo no atacado, montou uma tecelagem para a embalagem do mesmo e, para aproveitar o algodão que produzia o tecido, criou ma refinaria de óleo… e assim por diante.
Na mesma época na qual o também italiano Meneghetti, em São Paulo, era sinônimo de ladrão, a fortuna do antigo Francesco, de longe a maior do Brasil, tornou seu sobrenome sinônimo de milionário. Quando alguém era provocado para uma ação maior que suas posses, retrucava: – Eu, heim, pensa que sou o Matarazzo!?!
Ao morrer, em 1937, deixou para 12 de seus filhos ainda vivos, nome e patrimônio respeitáveis.
Andrea, um de seus irmãos, batizou o filho como Francisco Matarazzo Sobrinho – o Ciccillo -, o qual, assim como seu tio que perpetuou os Matarazzo na história econômica do Brasil, perpetuou-se na história das artes e da cultura paulista e brasileira.
Nascido em 1898 em São Paulo, Francisco Matarazzo Sobrinho, que se tornaria industrial e mecenas, vive na Europa dos 10 aos 20 anos de idade. Depois foi para a Bélgica, onde se forma engenheiro e de volta para o Brasil assume o comando das indústrias metalúrgicas da família e, na década de 1930, torna-se o único proprietário da Metalúrgica Matarazzo-Metalma.
A partir do final da Segunda Guerra estreita relações com o mundo intelectual, e sua união com a também milionária e mecenas Yolanda Penteado aprofunda sua relação com o universo pensante paulista.
Com o amigo de infância Franco Zampari, engenheiro das indústrias Matarazzo, cria, em 1948, o TBC – Teatro Brasileiro de Comédia – e, ano seguinte, também com Zampari, a Cia. Cinematográfica Vera Cruz, de cujos estúdios saiu o primeiro filme brasileiro com prêmios internacionais, O Cangaceiro, no Festival de Cannes.
Quanto ao TBC, por onde passaram Ziembiski, Cacilda Becker, Tonia Carrero, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Paulo Autran, Walmor Chagas e alguns diretores estrangeiros, é capítulo compulsório sobre a história do teatro brasileiro de Anchieta aos dias atuais.
Ciccilo, como presidente da Comissão do IV Centenário de São Paulo, entregou a Niemeyer a tarefa de projetar o Parque do Ibirapuera e a Burle Marx o paisagismo. Conseguiu, ainda, organizar um importante Festival Internacional de Cinema, assim como uma feira industrial brasileira e internacional.
Com a colaboração do milionário americano Nelson Rockefeller, já conseguira, antes, obter um acordo de cooperação com a MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova York, quando assume a liderança do projeto de criação do Museu de Arte Mderna de São Paulo, o museu pioneiro de arte moderna no Brasil, inaugurado em 1949 com a exposição Do Figurativismo ao Abstracionismo, primeira mostra coletiva de arte não figurativa realizada no Brasil.
Instalado na Rua Sete de Abril, no edifício dos Diários Associados, lá permaneceu até 1958, quando foi transferido para o Parque do Ibirapuera e, anos depois, doado à Universidade de São Paulo.
Com a participação fundamental da companheira Yolanda Matarazzo (Penteado de solteira), amiga da nata dos artistas plásticos que residiam na França, Ciccillo idealizou a Bienal Internacional de São Paulo e tornou-se seu principal realizador, cuja primeira edição ocorreu em 1951, na Avenida Paulista, no Trianon, espaço que não existe mais.
A II Bienal, num gesto temerário, realizou-se em 1953, num pavilhão inacabado do Parque do Ibirapuera, inda não inaugurado. Sucesso absoluto que teve, de quebra, a inclusão, na mostra, da Guernica, a celebrada tela a óleo de Picasso, medindo 3,50m por 7, 82m. Esse trabalho é normalmente identificado como repúdio ao bombardeio sofrido pela cidade espanhola de Guernica, por aviões alemães, em 26 de abril de 1937, em apoio ao ditador Francisco Franco, e foi guardado nos Estados Unidos até a queda daquele ditador, fato festejado com sua morte, em 20 de novembro de 1975.
Eu tive a possibilidade de ver a tela naquela Bienal, muito antes de revê-la em Madri, no Museu Nacional Raínha Sofia, onde se encontra.
Prezados leitores, tenho certeza absoluta que nunca fui acusado de prolixo e este texto apenas reúne alguns fatos significativos sobre o clã Matarazzo no Brasil e que, se tratados em detalhes, renderiam livros e mais livros.
Esta coluna deveria também prestar testemunho sobre o segundo presidente da Comissão do IV Centenário de São Paulo, o poeta Guilherme de Almeida, o sucessor de Ciccillo e que cumpriu todo o calendário de eventos programados, mas não cabe.
Semana que vem escreverei sobre o poeta a quem devo momentos de encantamento, de aulas de civismo e da coerência de cidadão devotado a São Paulo e ao Brasil, mas faço questão de repetir o que já escrevi em ocasião anterior: “Tenho certeza, como curioso das artes, amante dos livros e então futuro profissional de teatro, que cresci na cidade certa do Brasil daquela época”.
Inté.
Vitrine (comentário do leitor sobre a coluna anterior)
Sempre leio, amigo. E grato por enviar. Abração. Eliziário Goulart, jornalista, Porto Alegre.
Grato, Mario, e ansiosamente aguardo o próximo capítulo. Abraços. José Carlos Pellegrino, engenheiro, São Paulo.
Jovem Mario … você é generoso… Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recif.
Mário, V. é paulista ou gaúcho? Rodrigo Menezes, publicitário, São Paulo.
Rodrigo, nasci em Campinas, fui criado na capital, onde fiquei adulto, em 1955, resolvi viver de teatro, fui para o Rio onde residi até início de 1957 quando, a convite do Antonio Abujamra fui para Porto Alegre, dirigi peças, voltei para o Rio onde trabalhei até início de 1958 e, de volta ao Sul, fiquei 6 anos, até fugir da Redentora, em 1964. No Rio, na Standard Propaganda, durante dois anos fiquei atendendo em “ponte aérea” Rio/Salvador uma conta baiana e conheci você, então à frente de sua agência Propeg na capital baiana, onde montei a filial da Standard Propaganda. No Rio, atendi à conta da Shell e dei término à vida de cigano, fui para a Rede Globo, Fundação Roberto Marinho e, finalmente, descanso escrevendo livros. Abração.
Mario continue a resgatar a história de São Paulo que pouco é apresentada em livros. Por detrás da neblina cerrada das manhãs de julho de décadas atrás, São Paulo tem muito a revelar. Denise Demange, São Paulo.
Querido Mário, algumas imagens adormecidas renasceram hoje, depois de ler o seu texto. Eu tinha dois anos, estava no colo de meu pai e olhava para cima, encantada com a chuva de prata! Achei que fosse fruto da minha imaginação, mas você acaba de provar que era verdade!! A inauguração do Parque do Ibirapuera, o lago com os barcos a remo… fomos passear por lá, também! Foi dessa época o Zepelim? É outra lembrança do mesmo período. Tão bom recordar tudo isso, querido amigo! Obrigada, e um super beijo. Mônica Magaldi Suguihura, bióloga, Bebedouro, SP.
Mônica querida, foi bom a gente lembrar da “chuva de prata”, mesmo sendo eu já um adulto, quando daquele deslumbramento. Idem com o Parque do Ibirapuera, com Os Bandeirantes de Breacheret, o Obelisco, memorial de 1932, os lagos, e a arquitetura de Niemeyer. Quanto ao Zepelin, deve ser obra de sua memória auditiva, pois bem antes de você nascer, em 1938 (desde 1936), ele fazia sua última viagem no Brasil, do Rio, com escala no Recife, à Europa.
Escuta aqui, ô, já me considero colaboradora dessa matéria, aí, ô .Nota-se que já estou me divertindo, né? A coluna, a boa de sempre, hoje foi coroada com comentários muito agradáveis. Agradeço, por tabela. Um relato: fiz uma entrevista para a página da revista, mais do que agradável, deliciosa, com Danúbio Gonçalves. Estou encantada com o ser humano que ele é, fora o artista. Vai sair na próxima edição, a de novembro. Beijo. Vera Verissimo, Porto Alegre.
Beijo, Vera Verissimo, Porto Alegre.
Seja muito bem-vinda à coluna, a qual escrevo – sem interrupção, desde julho de 2003. Quanto à revista, mande assim que sair. Beijos


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