Quis o Criador me abençoar
Fazer de mim um menestrel
Traço o meu passo no compasso
Do surdo de primeira
Sou Mangueira!
Mangueira é nação e comunidade!
“Minha festa”, teu samba, ninguém vai calar!
Sou teu filho fiel, Estação Primeira
Por tua bandeira eu hei de lutar!
(Primeiras e últimas estrofes do samba-enredo da Estação Primeira da Mangueira no Carnaval de 2011, composição de Aílton, Alemão Xavier, Cesinha Maluco e Pê Baianinho).
Filho e sobrinho de músicos, Nelson Antônio da Silva nasceu em 29 de outubro de 1911.
Ainda jovem, foi morar no bairro da Gávea, onde começou a frequentar as rodas de choro, já tocando um cavaquinho que lhe daria o apelido de Nelson Cavaquinho.
Muito tempo depois de ouvir o sambista e compositor carioca, quando ele já havia trocado o cavaquinho pelo violão e tocar ambos os instrumentos com apenas dois dedos da mão direita, descobri que eu comprara, no lançamento, em 1977, um apartamento no edifício de um grande espaço, ainda sem nome, de uma antiga fábrica têxtil e vila operária que hoje é a Rua Professor Manoel Ferreira.
Naquele início da Gávea, Nelson entrou em contato com grupos de choro tocando o instrumento que acabou lhe dando o nome artístico de Nelson Cavaquinho.
Durante muito tempo, por falta de dinheiro, só tocava em cavaquinhos emprestados, até que a vida lhe concedeu a ventura de ganhar o instrumento, pelas mãos de um jardineiro português, o Ventura.
Através do pai, que tocava numa banda militar, tornou-se policial e fazia as rondas noturnas a cavalo, inclusive no morro da Mangueira, onde fez amizade com Zé Com Fome (Zé da Zilda) e Carlos Cachaça. Boêmio, por motivo de faltas consecutivas ao trabalho, inaugurou um ciclo de prisões também consecutivas. Na madrugada em que conheceu Cartola, por exemplo, seu cavalo, o Vovô, voltou para o quartel sem cavaleiro, pois o papo durou a noite inteira e Vovô cansou de esperar.
Antes, com cerca de 20 anos, levado a uma delegacia de polícia, acabou casando-se com Alice Ferreira Neves, e teve com ela quatro filhos. Tempos depois, abandonou a família.
Sua maior herança foi mesmo a música que, supõe-se, somou cerca de 400 composições – muitas não levam seu nome, pois em tempos de penúria as “vendia” sem direito de aparecer como coautor. Entre as assinadas, estão A Flor e o Espinho e Folhas Secas.
Sua primeira canção foi gravada por Alcides Gerardi, em 1939, Não Faça Vontade a Ela, mas não teve muita repercussão. Anos mais tarde, foi descoberto por Cyro Monteiro que fez várias gravações de suas músicas.
Começou a se apresentar em público já cinquentão nos anos 1960, no Zicartola, um espaço musical-etílico-gastronômico de Dona Zica e Cartola, na Rua da Carioca, no centro do Rio.
Lançou seu primeiro LP em 1970, Depoimento de Poeta, pela gravadora Castelinho.
Vítima de um enfisema pulmonar, aos 74 anos, na madrugada de 18 de fevereiro de 1986, Nelson despediu-se da boemia.
Como o Carnaval é muito antes de outubro, neste 2001,o G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira prestou homenagem ao centenário de nascimento de um dos mais representativos torcedores de suas cores e desfilou com o enredo O Filho Fiel, Sempre Mangueira.
Por dever de ofício, reli estas palavras e verifiquei que elas estão mal-alinhavadas, mas não tão descosidas como a vida do menestrel que, na calçada da Fiorentina, violão na mão, transformava as madrugadas em belos recitais de música popular.
Quem deixa, como deixei, a memória passear solta pelo passado, não pode pretender um discurso lógico e bem ordenado.
Em vez de pombo-correio, virei bem-te-vi.
De volta ao presente, informo que amanhã, terça-feira, com início às 20 horas, no MIS – Museu da Imagem e do Som, os jornalistas Sérgio Cabral, João Novaes e João Pimentel são protagonistas de uma Mesa-Redonda sobre Nelson Cavaquinho, com mediação da presidente do MIS-RJ, Rosa Maria Araújo.
Já na quinta-feira, 27, no mesmo local e horário, show de Moacyr Luz e Gabriel Cavalcante em tributo aos 100 anos do nascimento, na Tijuca, do Nelson que trocou, sem desafinar, o cavaquinho pelo violão.
Belo poeta e péssimo profeta, na parceria com Guilherme de Brito, Quando Eu me Chamar Saudade, cantou esses versos:
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Jovem Mario – a amizade alimenta a alma. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.
Mario, meu querido amigo, você é imorrível!!! Que bom!!! Um grande beijo, Marilia Vellozo, oficial administrativa, Rio.
A coluna do dia 17, a última, é deliciosa, principalmente para quem conhece esses tempos e para quem sabia parte da história, como eu. Agora, dizer que és ou eras dinamite, isso é pura realidade. Nada de sorrisinhos faceiros, tá? Te aquieta aí, tchê. Beijos. Vera Verissimo, Porto Alegre.


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