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Jornalista Carlos Bastos: “Não tenho dúvida de que se pegam o Mario de Almeida, matam o Mario de Almeida, principalmente naqueles primeiros dias.” Numa …

Jornalista Carlos Bastos: “Não tenho dúvida de que se pegam o Mario de Almeida, matam o Mario de Almeida, principalmente naqueles primeiros dias.”

Numa imensa e magnífica entrevista concedida a Nubia Silveira e participação de outros jornalistas, segunda-feira passada, para o jornal digital Sul21, o jornalista gaúcho Carlos Bastos conta como conseguiu me tirar de Porto Alegre após o golpe de 1964, quando publiquei na Última Hora gaúcha a Carta-Testamento e a foto de Getúlio Vargas. Face ao tamanho do texto, estou reproduzindo parte da matéria onde Bastos refere-se a mim, com alguns cortes. Bastos salvou a minha vida.

Nubia – E a história do Mario de Almeida?

Bastos – É o seguinte: ele era odiado pela polícia. O Mario tinha uma coluna, na página central do jornal, que era pau na polícia. Um troço devastador. Era pau, pau, pau na polícia. E eu não tenho dúvida de que se pegam o Mario de Almeida, matam o Mario de Almeida, principalmente naqueles primeiros dias. Cheguei um dia no jornal e me deu um cutuco. Eu sabia que o Nestor (Fedrizzi) estava guardando o Mario de Almeida. Eu digo: “Nestor, todo mundo da redação sabe onde o Mario de Almeida está”. O Nestor tinha se mudado de apartamento. Ele morava na Silva Só e se mudou para a Tomaz Flores. “Todo mundo está sabendo que o Mario está guardado no teu antigo apartamento. Daqui a pouco pegam um cara, ele não vai querer contar, mas batem nele e ele entrega. Batendo, o cara entrega.” Eu propus, então: “Vamos fazer o seguinte, Nestor: tu me entregas o Mário e tu não vais saber onde é que vou guardá-lo. Tu só sabes que estou guardando o Mario, mas não sabe onde”. Peguei o Mário e levei. Eu tinha um irmão solteirão, que morava sozinho, que não era metido em política. Disse pra ele que o meu amigo estava correndo risco de vida e meu irmão topou abraçar o Mario. O Mario, sempre que me encontra, diz: “Esse aqui salvou minha vida”. Não tenho dúvida. Salvei a vida dele.

Nubia – Não foi o Mário que vocês foram levar para fora de Porto Alegre no teu carro?

Bastos – Essa é maravilhosa! O João Ferreira deve ter te contado a história. É o seguinte: o Mario ficou na casa do meu irmão, mas daí começou a surtar. Estava trancado lá dentro. Não podia sair. Fui na casa da Ivette Brandalise, que era colega do Mario do Teatro de Equipe, porque o Mario me pediu: “Vai lá, pede para Ivete para eu ir pra Concórdia, na casa dela em Santa Catarina”. Chegamos na casa da Ivette — eu e o João Ferreira — e a Ivette nos convenceu com um argumento forte: “Bastos, Concórdia é desse tamaínho. Todo mundo conhece o Mario. Nós passamos um mês de férias lá e todo mundo conheceu o Mario. Agora, ele vai pra lá e em vinte minutos está preso. Mas acho que vocês têm onde esconder o Mário: na fazenda do pai do Paulo José”. O Paulo José, ator da Globo. O pai do Paulo José era engenheiro do DAER e era do partidão. Aí eu e o João Ferreira chegamos no apartamento do pai do Paulo José, que era na Barros Cassal. O pai do Paulo José estava guardando no apartamento 25 guris.

Elmar Bones — Os caras estavam caçando todo mundo.

Bastos — Estavam caçando todo mundo. Aí nós chegamos ali, apertei a campainha, veio o pai do Paulo José atender a porta. Perguntei: “O Orlando está?”, porque eu conhecia o irmão do Paulo José, o Orlando. Ele disse: “Não, o Orlando viajou. Está em São Paulo. Mas o que o senhor queria?” Eu digo: “É que nós somos amigos do Mario de Almeida”. E ele: “Ah, então entra”. O pai do Paulo José conhecia o Mario de Almeida. Quando nós entramos, tinha – acho — que uns 25 jovens, estudantes. O pai do Paulo José estava guardando no apartamento 25 guris. Os caras estavam tomando um sopão. A mãe do Paulo José servindo um sopão ali pros guris. O velho estava guardando na casa dele todo aquele bando.

Elmar — Era o lugar menos indicado para levar o Mario.

Bastos — Cheguei e disse: “Olha, o problema do Mario é o seguinte: ele está surtando. No lugar onde ele está guardado não vão descobri-lo, porque eu não vou lá”. A ponte que eu fazia é que eu almoçava na casa dos meus pais e meu irmão também. Aí nós trocávamos informações. O Mário mandava recado e eu mandava recado pra ele. E não tinha como descobrir. “Mas, ele quer sair”. O pai do Paulo José nos disse: “Vocês têm mais sorte do que juízo. Estou indo amanhã para minha fazenda em Lavras do Sul. Mas, só tem o seguinte: o Mario é dinamite pura, e dinamite pura eu não tiro de Porto Alegre. Vocês vão me entregar o Mario lá perto de Arroio dos Ratos”. Eu digo: “Não tem problema. Nós entregamos o cara”. No outro dia, de madrugada – estava escuro ainda – saímos no meu carro.

Bastos – Próximo encontro meu com o Mário de Almeida: 1979, eu trabalhava na (rádio) Guaíba. Estou numa entrega de prêmios para jornalista, com o Tonho Caldas (Francisco Antônio Caldas, diretor da Empresa Jornalística Caldas Jr), e o Mario de Almeida foi representando ninguém mais, ninguém menos, do que o Roberto Marinho (risos), dono da Rede Globo, porque o Mario era da Fundação Roberto Marinho.

Bastos – Se os policiais tivessem pegado o Mario, iam matá-lo como mataram o coronel da Base Aérea, o Alfeu Monteiro. O Alfeu Monteiro foi quem comandou a sublevação dos suboficiais e sargentos da Aeronáutica, que esvaziaram os pneus e os tanques de gasolina dos aviões na Legalidade. No dia 31 de março, ele foi executado no Cassino de Oficiais. Um oficial atirou nele, na cara dele assim. Matou ele ali.

 

Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)

Jovem Mario, sempre muito vivo mesmo quando diz não ter um lead! Do leitor leal, Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.

Sossega, Mario, a sua honestidade fez a coluna; a sua perspicácia captou em quem estamos pensando. Então, deixe o barco flutuar, as ondas trarão novos assuntos. Abraço, Denise Demange, São Paulo.

Tua última coluna resultou num texto de extrema perspicácia. Um ponto de vista ampliando um conceito. Tornaste o comum das notícias um quase ensaio. Abraços, Vera Verissimo, psicóloga, tradutora, Porto Alegre.

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Autor

Mario de Almeida

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